Já que estou justamente nos tais 30...
Aos dez anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos vinte. Aos vinte, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de trinta. (Convenhamos, a apenas seis primaveras da oitava série você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro - já não tão - cabeludo me atestavam, no espelho; eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de homo sapiens sapiens. E, sabe o que? Fiquei bastante contente com a descoberta.
A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e quando o faz por outras vias, como, por exemplo, pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias, para a prova da FUVEST.
Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos trinta, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais pra uma várzea do Tamanduateí do que pro tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto - a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na Educação Física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-Lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.
Se você está em torno dos trinta, pode lutar durante os próximos quarenta anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver afim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa pra fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.
Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus vinte e nove: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam as trinta”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto - sobre o qual não convém falar, por estar muito lá pra frente, só bem depois dos noventa. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte...
Antonio Prata
"...todas as atrações que uma versão prudente, mas versátil, desse misto de surpresa e fugacidade que normalmente se chama vida..."
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sexta-feira, 3 de junho de 2011
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Museu de Grandes Novidades
Maísa, a menina-monstro do SBT, vai gravar um disco. Ujian, o orangotango de um zoológico alemão, também. O que eles têm em comum? O macaco com certeza não se ofenderá se eu garantir que é a ausência do que dizer. Mas ele sabe assobiar, um dom tão fantástico que rendeu três versões do seu single de estréia: convencional para as rádios, remix para as pistas e uma no violão, afinal o que seria do orangotango se ele não pudesse “revisitar sua carreira no formato acústico”?
Comparar um macaco a uma “de menor”, que crueldade, cadê o Estatuto da Criança e do Adolescente? Então compararemos Ujian com quem sabe (e precisa) se defender: o Coldplay. Bem, o animal não será acusado de plágio. Agora confrontemos o orangotango ao furacão Susan Boyle: coitada, Ujian é muito mais sexy.
A conclusão é que o macaco é mais interessante do que qualquer fenômeno pop recente, mas quem vai assumir esse mico? Ninguém, tanto que a apresentação musical do último Super Bowl, a maior audiência televisiva dos EUA, foi do Bruce Springsteen. E os shows de maior destaque do concorrido festival Coachella foram os de Paul McCartney, Morrissey e Leonard Cohen. O que eles têm em comum? Fora o fato de somarem 250 anos de idade? Bono explica.
Certa vez, comentando o impacto dos últimos discos que Johnny Cash gravou, debilitado e doente, Bono veio com a teoria de que Elvis Presley chocou o mundo com as suas reboladas porque foi o primeiro jovem num cenário dominado por velhos. Mas o tempo passou e a situação ficou tão excessivamente juvenil que o surgimento de alguém com coragem para tratar de temas sérios, como a iminência da morte, causa o mesmo impacto do rei.
Pois é, apesar da babaquice política, Bono é, antes de tudo, um grande fã de rock e eu estou com ele. Neste cenário repleto de macacos e maísas, muito louco é pirar o cabeção no Leonard Cohen, um senhor de 74 anos que só veste terno e gravata, passou os últimos 15 anos sem fazer uma turnê sequer (não é muito louco?) até lançar um aclamado disco ao vivo no qual conversa com a platéia: “Eu estava bebendo com o meu mentor... ele tem 102 anos hoje, mas tinha 97 na época. [Aqui o público ri] Eu lhe preparei um drinque, nós brindamos e ele disse: ‘Me desculpe por não morrer’. Eu estou me sentindo do mesmo jeito agora”. E a multidão ri de novo, desajeitada, sem saber se era para ter rido antes, completamente desconcertada pela seriedade avassaladora de Cohen, uma seriedade muito mais impactante que qualquer macaquice que nos acostumaram a ver por aí. Uma seriedade tão chocante quanto foi um dia a pélvis do Elvis.
E ainda tem gente que não consegue entender como é que o Bob Dylan chegou ao primeiro lugar das paradas britânicas desbancando Lady Gaga, Beyoncé, Kings of Leon e Pussycat Dolls.
Miguel Sokol
(Originalmente publicada na revista Rolling Stone Brasil, junho de 2009)
Comparar um macaco a uma “de menor”, que crueldade, cadê o Estatuto da Criança e do Adolescente? Então compararemos Ujian com quem sabe (e precisa) se defender: o Coldplay. Bem, o animal não será acusado de plágio. Agora confrontemos o orangotango ao furacão Susan Boyle: coitada, Ujian é muito mais sexy.
A conclusão é que o macaco é mais interessante do que qualquer fenômeno pop recente, mas quem vai assumir esse mico? Ninguém, tanto que a apresentação musical do último Super Bowl, a maior audiência televisiva dos EUA, foi do Bruce Springsteen. E os shows de maior destaque do concorrido festival Coachella foram os de Paul McCartney, Morrissey e Leonard Cohen. O que eles têm em comum? Fora o fato de somarem 250 anos de idade? Bono explica.
Certa vez, comentando o impacto dos últimos discos que Johnny Cash gravou, debilitado e doente, Bono veio com a teoria de que Elvis Presley chocou o mundo com as suas reboladas porque foi o primeiro jovem num cenário dominado por velhos. Mas o tempo passou e a situação ficou tão excessivamente juvenil que o surgimento de alguém com coragem para tratar de temas sérios, como a iminência da morte, causa o mesmo impacto do rei.
Pois é, apesar da babaquice política, Bono é, antes de tudo, um grande fã de rock e eu estou com ele. Neste cenário repleto de macacos e maísas, muito louco é pirar o cabeção no Leonard Cohen, um senhor de 74 anos que só veste terno e gravata, passou os últimos 15 anos sem fazer uma turnê sequer (não é muito louco?) até lançar um aclamado disco ao vivo no qual conversa com a platéia: “Eu estava bebendo com o meu mentor... ele tem 102 anos hoje, mas tinha 97 na época. [Aqui o público ri] Eu lhe preparei um drinque, nós brindamos e ele disse: ‘Me desculpe por não morrer’. Eu estou me sentindo do mesmo jeito agora”. E a multidão ri de novo, desajeitada, sem saber se era para ter rido antes, completamente desconcertada pela seriedade avassaladora de Cohen, uma seriedade muito mais impactante que qualquer macaquice que nos acostumaram a ver por aí. Uma seriedade tão chocante quanto foi um dia a pélvis do Elvis.
E ainda tem gente que não consegue entender como é que o Bob Dylan chegou ao primeiro lugar das paradas britânicas desbancando Lady Gaga, Beyoncé, Kings of Leon e Pussycat Dolls.
Miguel Sokol
(Originalmente publicada na revista Rolling Stone Brasil, junho de 2009)
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