"...todas as atrações que uma versão prudente, mas versátil, desse misto de surpresa e fugacidade que normalmente se chama vida..."
terça-feira, 9 de agosto de 2011
London Calling
Nesses dias estranhos temos a sensação da história acontecendo diante de nossos olhos, a transformação parece inexorável e definitiva e temos a certeza de que o mundo não vai mais ser o mesmo.
Não é simplesmente um evento isolado, numa cidade distante. É um espírito no ar gerando mudanças em todos os lugares ao mesmo tempo.
A história ensina que as grandes transformações, o fim e o início de novos ciclos, geralmente não ocorrem por influências externas, mas pelo próprio sistema que corrói a si mesmo até desmoronar sob seu próprio peso.
Esses tempos me fazem pensar que uma nova forma de viver é possível, que as coisas não foram "sempre assim". Destruição e reconstrução são inevitáveis como o dia e a noite.
É uma época boa de se estar vivo.
sábado, 6 de agosto de 2011
The girl next door
Sempre gostei demais da Nancy Sinatra. Uma mulher linda, cheia de personalidade e atitude, um rosto e voz suaves mas com um olhar misterioso, que esconde segredos terríveis.
É aquela construção agridoce, que esconde uma aspereza por baixo da melodia assobiável. A maquiagem borrada sobre o rosto de anjo.
Ela me conquistou definitivamente com o cabuloso disco Nancy Sinatra, de 2004. A turma que ela conseguiu juntar nesse disco é brincadeira: Morrissey (que é obcecado por ela desde a adolescência), Jon Spencer (meu mais novo guitar hero), Thurston Moore, Jarvis Cocker e a turma do U2, pra citar alguns.
A maior parte de sua produção musical foi feita no meio dos 60 até o começo dos 70. Portanto, em 2004, Nancy, indiscutivelmente ainda cheia de talento, mojo e experiência, já era uma respeitável senhora, e com uma capacidade de seduzir - os olhos e ouvidos - que os anos transformaram em admiração e respeito.
Porém, geração Y, seus problemas acabaram.
Estava à toa na vida e outro dia, por acaso, vi num post do Popload a bela figura de Lana Del Rey. O Lucio Ribeiro é um cara que sabe das coisas, é divertido, porém seu estilo é hiperbólico demais e quem segue os textos dele sabe que tem que pensar algumas vezes antes de comprar todas as "maravilhas" que ele indica.
Com Lana Del Rey, o cara acertou em cheio.
Ela tem 25 anos e ainda está gravando seu primeiro disco. Suas poucas músicas disponíveis já mostram uma artista cheia de estilo, nuances e camadas, pop ao extremo mas com aquele jeito de quem tem algo mais a dizer. Tem aquele mesmo brilho no olho sacana/inocente que popularizou a filha do Frank no passado.
É o clichê do universo pop, mas essa mixed message sempre funciona.
Os dois videos abaixo são sensacionais e as músicas são incríveis. A opção estética pelo antigo em contraste com o novo, desenho animado e video game, gera uma estranheza que torna difícil desviar o olhar.
Ela ensina que não é preciso rebolar nem ter que se vestir "sensual" para seduzir. O que faz um cara perder a cabeça, sabemos, é um olhar, um sorriso roubado, aquela arrumada no cabelo, a girl next door.
Mas isso é só para quem pode, não é para quem quer.
Esperando o disco novo como criança espera o natal.
Os videos. Enjoy.
Kinda Outta Luck
Video Games
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Like a Rolling Stone
Fui convidado por uma amiga para uma festa na casa de um vizinho dela no Lago Norte, em Brasília. As festas do vizinho sempre eram bem animadas, segundo ela, a casa era grande, sempre tinha bastante cerveja gelada e, a melhor parte, o vizinho tocava numa “banda cover dos Rolling Stones”. Não estava fazendo nada mesmo, vamos nessa.
O som estava alto. Conseguia escutar You Can´t Always Get What You Want no quarteirão de trás da casa. Pela altura da música, já imaginava que estava indo para uma festa na Mansão da Playboy. Pura ilusão. Quando chegamos, o cenário era bem menos excitante: uma casa grande, bonita, mas com meia dúzia de gatos pingados em pé com frio, chacoalhando os joelhinhos, enquanto a banda tocava. Minha amiga não conhecia ninguém - eu menos ainda. Roubada, pensei.
Nos olhamos e rapidamente corremos em direção à tina de cerveja. Realmente estava gelada. Achamos um canto próximo à banda e começamos a assistir ao show.
Aqui coloco um parênteses.
Nunca entendi muito bem esse negócio de banda cover. Na minha cabeça, banda cover é coisa de moleques de 15 anos, fãs de punk rock, que não sabem tocar direito e querem tirar uma onda tocando um som que gostam e que não seja muito difícil. O barato de ter banda é tocar as suas próprias músicas, foi o que sempre pensei.
Enfim...
Essa banda que assisti no último sábado era tudo menos amadora. Os músicos eram excelentes, pessoal mais velho, os equipamentos e instrumentos eram de primeira, tudo bem equalizado, os caras tinham um repertório de quem sabia do que estava falando. Não sou nenhum grande fã de Rolling Stones, mas eu sei quando as versões são boas ou não. E a deles era excelente. Tocaram todos os hits, umas antigas e “um pouco de Stones anos 90 para vocês” rigorosamente igual às versões originais.
E a postura dos caras no palco improvisado foi o que mais me chamou a atenção. Embora eles estivessem tocando em casa - o tal do vizinho era o Ron Wood do rolê - para meia dúzia de amigos, a impresão é que eles estavam tocando no Rock in Rio: “quem sabe agora canta junto!”, “tá bonito” e vários “oh, yeah” bem encaixados serviam para chamar a massa para a celebração rock n´roll.
Mas o que me deixou passado foi o guitarrista, o Keith Richards brasileiro. Beirando seus 60 anos, calça jeans e blusa de moleton cinza, meio careca de óculos, o cara parecia aqueles tiozinhos bem caretas que a gente encontra em repartições públicas (estando em Brasília, a possibilidade é real). E o cara era um monstro na guitarra! Sem sacanagem, nesse universo de guitarrista de rock clássico, estilo guitar hero, solos com milhares de notas durante 15 minutos e o caralho, ele era o cara.
Nenhum dos caras da banda vive de música, fiquei sabendo. O tesão deles é justamente emular, nota por nota, trejeito por trejeito, a atmosfera e a música de seus ídolos, mais do que se expor ou se desgastar com trabalhos autorais. Pelo que vi, eles devem ter acumulado milhares de horas de ensaios e treinamento e devem ter desembolsado uma bela grana em equipamentos para atingir o som, a técnica e o entrosamento que demonstraram.
Todos nós já vimos milhares dessas bandas cover pelos barzinhos da vida, bandas de formatura ou de casamentos, que tocam, melhores ou piores, as músicas que um determinado público quer ouvir, sem que role necessariamente uma identificação dos músicos com o que estão tocando.
No sábado, eu vi o contrário. Uma banda se divertindo, sábado à noite, em casa, com poucos amigos - acho que se não tivesse ninguém a execução deles seria a mesma - replicando um som com os quais eles claramente são apaixonados. Fez parar para pensar.
No fim das contas, foi uma noite divertida. A banda me devolveu por algumas horas uma fé no rock n'roll que já andava meio adormecida para mim. E nem eu acreditei quando me vi fazendo o famoso corinho ("uhh uhh") de Sympathy for the Devil às 3 horas da manhã.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Everyone Loves You When You're Dead

Neil Strauss é um cara que sabe das coisas.
Jornalista cultural de diversas publicações como o New York Times, Rolling Stone, Spin, entre várias outras, ele dominou o formato de entrevistas oferecendo ao leitor um material muito mais profundo e original do que um informe publicitário sobre o último produto que determinado artista está divulgando como é o lugar-comum no jornalismo musical atual. Em suas conversas francas e diretas, o que importa é justamente o que não está evidente nos releases ou falsas imagens construídas pelos marketeiros de plantão.
Ele também é co-autor da deliciosa biografia do Mötley Crue (The Dirt) e da antiga rainha do cinema pornô Jenna Jameson (How to Make Love Like a Pornstar).
A principal característica de seu trabalho é a compaixão e a empatia que ele demonstra com seus entrevistados. O aparente entendimento de que as pessoas são como são e que não há nada a fazer a não ser tentar entendê-las dá aos entrevistados uma tranquilidade de abrir-se sobre diversos temas que normalmente não lhes são perguntados.
Strauss nunca tenta parecer fazer parte da turma ou mais inteligente ou descolado que as pessoas que lhe dão seus depoimentos. Com isso, ele consegue verdadeiras pérolas!
Seu último livro, Everyone Loves You When Your’re Dead, é fantástico.
A lista dos personagens que dão seu depoimento no livro é quase ridícula: Bruce Springsteen, PJ Harvey, Leonard Cohen, Johnny Cash, Eric Clapton, Marilyn Manson, Grateful Dead, Pink Floyd, Courtney Love, Brian Wilson, Dolly Parton, Snoop Dogg, Oasis, Madonna, Trent Reznor, Lady Gaga, Korn, Britney Spears, Led Zeppelin, the Who e mais uma infinidade de artistas, maiores e menores, alternativos ou comerciais, famosos e anônimos.
Strauss foi consultar diretamente as suas gravações originais das entrevistas e, sem a tesoura editorial que existe nos grandes veículos, pôde tecer uma linha de raciocínio e uma narrativa lógica baseada em diversos trechos de entrevistas, que vão e voltam numa edição ágil e quase cinematográfica, e que expõe diversas opiniões e impressões sobre um mesmo tema, às vezes constrastantes, outras complementares.
O autor nos coloca na cena, nos conta o que está acontecendo enquanto aquela conversa de desenvolve. Sentimos a mesma antipatia do entrevistador enquanto tenta manter uma conversa minimamente coerente com um Julian Casablancas completamente bêbado, chato e alheio ao papo, por exemplo.
Neil Strauss parte da opinião que qualquer entertainer, qualquer ser humano que resolva assumir um papel de protagonista nesse jogo do showbusiness, o arquétipo do “ídolo”, a vida na estrada, a dinheiro, os bajuladores, as diferentes variações do trinômio “sexo, drogas e rock n’roll”, possui alguma forma mais ou menos séria de disfunção - ninguém pode olhar para gente como Marilyn Manson ou Lady Gaga e achar que eles operam na mesma frequência das pessoas como nós que fazem fila no banco ou no cinema.
E tantos deles são tão infelizes, fizeram tanta mas tanta merda na vida, que quase lamentamos as escolhas que eles fizeram e, de certa forma, nos fazem repensar as nossas próprias, de uma forma ou de outra.
Num dos meus capítulos favoritos, o tema que norteava todas as conversas era justamente sobre essa inadequação e essas formas de “loucura” que conduzem um processo criativo. É quase patético ler a entrevista do multi-milionário-agora-ganhador-do-Oscar Trent Reznor, do Nine Inch Nails, discorrendo sobre os malefícios da fama, do quanto ele sentia-se deslocado no mundo, com todo o dinheiro que ele ganhava e que, segundo o próprio, o fazia agir como um asshole com os outros, enquanto vemos entrevistas com outros músicos, igualmente problemáticos mas que verdadeiramente tiveram esgotamentos nervosos, ficaram anos internados em instituições e que nunca realmente conseguiram se encaixar no mundo.
E sem um publicist ou gravadora ganhando em cima.
Para quem gosta desse universo, Everyone Loves You When Your’re Dead é uma aula de jornalismo musical e de cultura pop. É o que acontece nos bastidores, são as pessoas reais (ou uma versão próxima disso) que existem por baixo das imagens que estamos acostumados a consumir.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Por que vale a pena viver, por Eduardo Galeano
Sem mais.
(vi no Bate Estaca, do Camilo Rocha, e tive que reproduzir por aqui também)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Terceiro ato
Já que estou justamente nos tais 30...
Aos dez anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos vinte. Aos vinte, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de trinta. (Convenhamos, a apenas seis primaveras da oitava série você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro - já não tão - cabeludo me atestavam, no espelho; eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de homo sapiens sapiens. E, sabe o que? Fiquei bastante contente com a descoberta.
A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e quando o faz por outras vias, como, por exemplo, pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias, para a prova da FUVEST.
Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos trinta, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais pra uma várzea do Tamanduateí do que pro tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto - a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na Educação Física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-Lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.
Se você está em torno dos trinta, pode lutar durante os próximos quarenta anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver afim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa pra fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.
Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus vinte e nove: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam as trinta”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto - sobre o qual não convém falar, por estar muito lá pra frente, só bem depois dos noventa. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte...
Antonio Prata
Aos dez anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos vinte. Aos vinte, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de trinta. (Convenhamos, a apenas seis primaveras da oitava série você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro - já não tão - cabeludo me atestavam, no espelho; eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de homo sapiens sapiens. E, sabe o que? Fiquei bastante contente com a descoberta.
A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e quando o faz por outras vias, como, por exemplo, pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias, para a prova da FUVEST.
Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos trinta, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais pra uma várzea do Tamanduateí do que pro tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto - a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na Educação Física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-Lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.
Se você está em torno dos trinta, pode lutar durante os próximos quarenta anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver afim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa pra fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.
Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus vinte e nove: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam as trinta”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto - sobre o qual não convém falar, por estar muito lá pra frente, só bem depois dos noventa. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte...
Antonio Prata
terça-feira, 24 de maio de 2011
Quando uma coisa vira outra coisa (ou Minhas Versões Favoritas dos Beatles)
Sempre achei fantástico, no campo da criação, a dissociação existente entre autor e obra. Quando o produto finalizado sai da cabeça do criador e vira uma entidade autônoma e auto-suficiente, propensa a reinterpretações e releituras, muitas vezes obtendo resultados que se distanciam enormemente da intenção da obra original.
Tava pensando nisso outro dia, pensando em versões de músicas. Resolvi colocar aqui minhas versões favoritas de canções dos Beatles. É o caso de transformação a que me referia: o resultado final da canção a transforma em outra coisa, diferente da idéia original. E, vamos concordar: se o cidadão consegue dar um novo sentido à uma canção dos Beatles, merece no mínimo uma escutada.
Fiona Apple - Across the Universe
Aqui a melodia casa perfeitamente com a letra e intenção da canção. Um tom mais repetitivo e monocórdico, um riff de bateria que carrega a canção como um mantra. "Nothing's gonna change my world" nunca soou tão verdadeiro. E eu acho ela foda, ponto!
Elliott Smith - Because
Acho que essa é uma das mais respeitosas versões que conheço. Elliott Smith era um beatlemaníaco e o rigor com que ele interpreta esse clássico do Abbey Road, especialmente o começo a capela, é arrepiante!
Nick Cave - Let It Be
É inevitável associarmos a imagem do intérprete com o que ele está cantando. Nesse caso, a versão de Nick Cave - um cara que já viu de tudo um pouco nessa vida - traz uma honestidade e um sentimento de redenção novos à canção. É aquela coisa de católico culpado elevado a décima potência. Lindo!
Johnny Cash - In My Life
Aqui o negócio é muito sério. Uma coisa é imaginar Paul McCartney - compositor genial, sem dúvida alguma - novinho, meio ingênuo até, dizendo "in my life I love you more". Outra, completamente diferente, é imaginar Johnny Cash, outro que viu de tudo nessa vida, velho, doente, tendo perdido recentemente o amor de sua vida inteira, porém com aquela sabedoria que apenas o tempo oferece, repetindo a mesma frase. Arrepia toda vez que escuto.
Easy Star All-Stars - She's Leaving Home
Na versão original, sempre tive aquela impressão de "meninos-falando-sobre-meninas-Virgens-Suicidas-style", com aquele misto de admiração, fofura, tosquice adolescente e ignorância. Nessa versão do Easy Stars, a conversa parece ser mais íntima, menina falando sobre menina, e os moleques tentando escutar através da porta. Viajei?
Florence and the Machine - Oh Darling
Florence Welch demonstrou bastante personalidade em seu disco de estréia do Florence and the Machine, como faz também nessa versão de uma canções favoritas de um dos discos favoritos da casa.
Al Green - I Want to Hold Your Hand
Quando os Beatles cantaram essa canção em 1963, dá até pra imaginar que eles realmente queriam apenas pegar na mão da muchacha. A versão de Al Green é tão quente que ficamos na dúvida do que mais ele quer pegar.
Tava pensando nisso outro dia, pensando em versões de músicas. Resolvi colocar aqui minhas versões favoritas de canções dos Beatles. É o caso de transformação a que me referia: o resultado final da canção a transforma em outra coisa, diferente da idéia original. E, vamos concordar: se o cidadão consegue dar um novo sentido à uma canção dos Beatles, merece no mínimo uma escutada.
Fiona Apple - Across the Universe
Aqui a melodia casa perfeitamente com a letra e intenção da canção. Um tom mais repetitivo e monocórdico, um riff de bateria que carrega a canção como um mantra. "Nothing's gonna change my world" nunca soou tão verdadeiro. E eu acho ela foda, ponto!
Elliott Smith - Because
Acho que essa é uma das mais respeitosas versões que conheço. Elliott Smith era um beatlemaníaco e o rigor com que ele interpreta esse clássico do Abbey Road, especialmente o começo a capela, é arrepiante!
Nick Cave - Let It Be
É inevitável associarmos a imagem do intérprete com o que ele está cantando. Nesse caso, a versão de Nick Cave - um cara que já viu de tudo um pouco nessa vida - traz uma honestidade e um sentimento de redenção novos à canção. É aquela coisa de católico culpado elevado a décima potência. Lindo!
Johnny Cash - In My Life
Aqui o negócio é muito sério. Uma coisa é imaginar Paul McCartney - compositor genial, sem dúvida alguma - novinho, meio ingênuo até, dizendo "in my life I love you more". Outra, completamente diferente, é imaginar Johnny Cash, outro que viu de tudo nessa vida, velho, doente, tendo perdido recentemente o amor de sua vida inteira, porém com aquela sabedoria que apenas o tempo oferece, repetindo a mesma frase. Arrepia toda vez que escuto.
Easy Star All-Stars - She's Leaving Home
Na versão original, sempre tive aquela impressão de "meninos-falando-sobre-meninas-Virgens-Suicidas-style", com aquele misto de admiração, fofura, tosquice adolescente e ignorância. Nessa versão do Easy Stars, a conversa parece ser mais íntima, menina falando sobre menina, e os moleques tentando escutar através da porta. Viajei?
Florence and the Machine - Oh Darling
Florence Welch demonstrou bastante personalidade em seu disco de estréia do Florence and the Machine, como faz também nessa versão de uma canções favoritas de um dos discos favoritos da casa.
Al Green - I Want to Hold Your Hand
Quando os Beatles cantaram essa canção em 1963, dá até pra imaginar que eles realmente queriam apenas pegar na mão da muchacha. A versão de Al Green é tão quente que ficamos na dúvida do que mais ele quer pegar.
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