segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Selvagens, de Don Winslow




O papel de inimigo do momento que já pertenceu a marcianos, comunistas e terroristas no imaginário da ficção norte-americana parece ter sido tomado nos últimos tempos pelos cartéis de drogas mexicanos, com sua violência estilizada e ganância sem fim.  Sem entrar no mérito da questão real do tráfico de drogas nas fronteiras dos dois países - sobre o assunto, recomendo o assustador Amexica, do jornalista Ed Vulliamy - a questão da fluidez entre as fronteiras, o pensamento capitalista de mercado e lucro a qualquer preço levado às últimas consequências, a violência gráfica e a proximidade geográfica e cultural é prato cheio para escritores de ficção.  
Cinematograficamente, Traffic, Machete, Breaking Bad, entre muitos outros, já nos habituaram ao cenário desértico entre fronteiras, jovens inexperientes tornando-se assassinos cruéis, cabeças expostas em rodovias e traficantes bigodudos e bronzeados com paletós brancos em suas mansões autorizando execuções ao celular.
Uma das últimas boas contribuições para o gênero é o livro Selvagens (Savages), de Don Winslow, de 2010, transformado em filme recentemente por Oliver Stone, com roteiro do próprio autor.

Selvagens é um livro rápido de ler, com um texto esperto escrito quase como um roteiro de cinema (ainda não vi o filme de Stone para comparar).  
Na trama, Ben e Chon são amigos que produzem a melhor maconha do sul da Califórnia - as descrições das milhares de propriedades das milhares de variedades do produto que eles comercializam criam algumas das melhores sequências do livro - e além de dividirem os negócios, também dividem a mesma mulher, O. (no filme, interpretada pela tchutchuca Blake Lively).  Ben é o empreendedor, o cultivador, o homem de negócios, e Chon é o muthafocka que toma as decisões difíceis da parceria e de um negócio, bem, selvagem.  Em algum momento, seus negócios acabam entrando em conflito com os interesses de expansão do Cartel de Baja nos Estados Unidos.  E aí a história começa.

Don Winslow tem um estilo bastante ágil de escrever e não se prende demais a motivações internas ou monólogos interiores de seus personagens, preferindo focar na ação e nas consequências de seus atos.  Dessa maneira, o livro perde em profundidade, mas ganha em dinamismo.  Em determinado momento, vira quase um filme de aventura estilo Sessão da Tarde, com o que isso tem de bom e de ruim.
O texto de Winslow, entretanto, vale a leitura: ele é ligeiro, sexy e, na maioria do tempo, muito engraçado. É um texto permeado de ironia, de senso de absurdo e de um notável carinho por seus personagens, de ambos os lados da fronteira e da lei.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Beans On Toast tentando dizer a verdade



Jay é inglês, de Essex, gosta de jogar videogame e tocar violão.  Sua voz já está bem arrebentada pelo cigarro, drogas e cerveja.  Jay está no final de seus vinte anos, começo dos trinta, e está ficando careca.  Jay bebe muito, toma mais drogas do que deveria e não é nada envergonhado disso.  Ele gostava de Laura Marling de um jeito no mínimo inadequado quando ela tinha 16 anos.  Saiu uma vez com uma moça de 38 quando ele tinha 26.  Jay comprou um computador Apple uma vez e adorou, só ficou um pouco preocupado onde ele havia sido construído.  Jay adora ir a festivais de música e não se importa com os banheiros sujos.  Ele namora Lizzie Bee e gosta bastante dela.  Jay foi grunge, adora rock n'roll, reggae, bluegrass e country, Henry Rollins, Wu Tang Clan, Counting Crows e Fats Domino.  Odeia Tony Blair e George W. Bush.  Uma vez ele ficou bem puto de ciúme quando sua namorada saiu numa viagem de seis semanas pelo Mexico.  Jay é um cara com senso de humor.  A única coisa que Jay pede desesperadamente é que o deixem fumar no pub.  Seu objetivo na vida é viajar por aí, tocar suas canções e vender alguns CDs que o permita continuar fazendo isso.

O Jay das canções parece ser um cara bem legal.

Jay é o homem por trás do projeto Beans On Toast e já tem três discos lançados.  Sua música é a mais simples possível, a grande maioria ao violão, um piano aqui e ali, uma marcação de bateria e um backing vocal e olhe lá.  Basicamente música de bar, pra cantar junto.
A beleza da coisa toda está justamente na simplicidade e na honestidade quase punk que ecoa de seu trabalho.  É música direta, urbana, sobre o hoje e sobre o agora, de um ponto de vista absolutamente pessoal, com todas as contradições e limitações que isso oferece.  É quase um blog em forma de canções: ele fala e tem opinião sobre tudo e não tem nenhum interesse em aprofundar conhecimentos ou formular teorias.  É aquela coisa de "é assim porque eu acho que é assim" e tudo bem.  Ninguém precisa concordar em tudo.
Ele frequentemente é tema de suas próprias canções, em forma de histórias engraçadíssimas que sempre envolvem mulheres, drogas e bebedeiras.  Esse estilo autobiográfico, autodepreciativo e irônico lembra bastante o trabalho de outros autores.  Penso bastante nos quadrinhos de Harvey Pekar e Robert Crumb, especialmente o American Splendor, de Chester Brown e da série de TV de Louis CK, Louie.  Para falar sobre o mundo, comece falando sobre sua rua, certo?

Seu disco de estréia, Standing On A Chair, é um disco duplo, com 50 (!!) canções no total, onde Jay canta sobre tudo, de cocaína a Saddam Hussein, do colapso da indústria musical a juventude revoltada inglesa.   Os discos seguintes, Writing On The Wall e Trying To Tell The Truth, já possuem formatos mais modestos, mas o conteúdo continua o mesmo.  O amigo Frank Turner produziu esse último, e já dá pra perceber uma tentativa de dar uma mínima sofisticada no som do Beans On Toast e o resultado é excelente, mantendo a tosquice onde ela deve permanecer.

Num mundo onde uma estratégia eficiente de marketing e uma boa imagem institucional é tão importante para um artista quanto achar os acordes adequados para uma canção, é um alívio passar algumas horas escutando as  histórias de Jay, tocadas de maneira direta, como ele sabe fazer, e não se importando com isso.

Como era mesmo aquela história punk do "faça você mesmo"?










segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Miriam




A beleza de algumas canções reside justamente no que elas não dizem.
Miriam está no último álbum da Norah Jones, Little Broken Hearts, lançado esse ano e produzido pelo bamba Danger Mouse.  O disco inteiro é incrível, mostrando uma faceta mais experimental e áspera da cantora, com canções intimistas e climáticas.  Embora não tenha recebido críticas muito efusivas na ocasião de seu lançamento, é um disco que vai crescendo no ouvinte a cada audição e no final se tem a impressão que Norah Jones acabou apresentando um de seus álbuns mais sólidos e pessoais.  Pessoalmente, está entre os meus favoritos da cantora, ao lado do The Fall

Miriam não estava entre as minhas preferidas do disco mas o vídeo para ela lançado recentemente corrigiu esse deslize.  Dirigido por Philip Andelman, o trabalho visual por si só já é impressionante.  Desde o ritmo de câmera meio Terrence Malick até o final surpreendente, esse é daqueles que te faz querer assistir mais de uma vez (ou umas duzentas, no meu caso).  Norah mostra que suas incursões cinematográficas a deixaram bem confortável diante das câmeras e ela entrega o mesmo auto-controle freak e o olhar injetado que demonstra com a voz na canção - além de estar linda de morrer.  Dá medo da mulher, mas de um jeito bom...

Quanto à música, aí também é coisa de gente grande.  Uma saída fácil para uma canção que aborda o tema que aborda seria cair para uma interpretação rasgada e exagerada.  Afinal, a personagem da canção está falando com alguém que aprontou com seu homem, certo?  O controle da voz e da instrumentação econômica, as palavras pronunciadas pausadamente, a aparente calma e assertividade com que é endereçada à Miriam do título são os grandes trunfos para chegar nesse clima claustrofóbico e incômodo que a canção alcança.  
O ouvinte entende que a coisa ficou realmente séria na última estrofe da música e nos últimos segundos do vídeo.  Coisa foda!



Miriam
That's such a pretty name
I'm gonna say it when
I'll make you cry

Miriam
You know you done me wrong
I'm gonna smile when
You say goodbye

Now I'm not the jealous type
Never been the killing kind
But you know I know what you did
So don't put up a fight

Miriam
When you were having fun
In my big pretty house
Did you think twice?

Miriam
Was it a game to you?
Was it a game to him?
Don't tell me lies

I know he said it's not your fault
But I don't believe that's true
I've punished him for being too weak
Now I've saved the best for you

And I'm trying not to hurt you
'Cause you might not be that bad
But it takes a lot to make me go this mad

Oh Miriam
That's such a pretty name
And I'll keep saying it
Until you die

Miriam
You know you done me wrong
I'm gonna smile when
You say goodbye

You know you done me wrong
I'm gonna smile when
I take your life





PS: Não que venha muito ao caso, mas fico me perguntando se a tal Miriam é real ou não.  Se for, fico imaginando que foda deve ser quando uma das mais famosas cantoras do mundo faz uma música e um vídeo falando o seu nome pro mundo inteiro dizendo que vai te matar porque você mexeu com o cara dela...  




terça-feira, 31 de julho de 2012

Frank Turner - Love Ire & Song




Não sei dizer em que momento exatamente o sonho morreu.  O fato é que em algum momento aquela cartilha do punk - ou do rock em geral -  do faça você mesmo, das canções vigorosas, sinceras e diretas, da juventude urbana insatisfeita, virou referência para jingles de refrigerante e trilhas sonoras de eventos corporativos sobre skate, tatuagem ou marcas de roupas. 
Da mesma maneira que o rap - e praticamente toda expressão cultural jovem das últimas décadas - o rock seguiu seu caminho, evoluiu, criou seu mercado, sua iconografia, seus nichos, vertentes e subvertentes e foi decepcionando os que ainda acreditavam numa forma de expressão genuína baseado em sinceridade e urgência de fazer acontecer.

Essa decepção está ligada também ao nosso próprio amadurecimento e à complexidade crescente que começamos a vivenciar em nossos pontos de vista conforme envelhecemos.  Quando somos jovens, achamos que podemos mudar o mundo com três acordes de guitarra, nossos inimigos são claros e nossa causa é justa.  Com o tempo, percebemos que existem muito mais tons de cinza entre nosso preto e branco do que gostaríamos de admitir.  Percebemos que não existe uma coisa estática e ameaçadora chamada “sistema” onde podemos descontar nossas frustrações e culpar por nossa inabilidade de explicar um mundo com nuances, interesses e camadas demais.  O rock continua sendo vendido - nesse caso, como um sabão em pó ou um cereal matinal - como “música para jovens” e esse rótulo simplesmente serve de desculpa para jogar nesse saco uma legião de músicos e bandas medíocres - alguns mais bem intencionados que outros - que confundem simplicidade com tosquice, ser direto com ser tolo, com claros interesses comerciais.

Sinto-me frequentemente dividido nesse duplipensar.  Cresci sob a mitologia do rock n’roll.  Meus heróis empunhavam violões e guitarras, se expunham, chocavam e levavam sua expressão ao limite, desafiando seus ouvintes e seu tempo.  Ao mesmo tempo que quero acreditar que somos capazes de fazer a diferença, de que qualquer um com vontade de mudanças pode efetivamente sê-la, sou frequentemente confrontado com meu próprio ceticismo e desconfiança de qualquer um que realmente esteja tentando. 
E, vamos admitir, meus interesses, receios e anseios também mudaram com o tempo.  Hoje eu me preocupo com meu lugar no mundo, com meus amigos, com amor, com ganhar dinheiro para viver minha vida com algo que me satisfaça e que não exija minha alma em retorno, todos esses dilemas morais com que vamos topando conforme vamos vivendo.  Minha raiva adolescente foi gradualmente substituída por uma perplexidade com a vida e uma crescente aceitação da pessoa que me tornei.

Tudo isso, ao final, para falar de um disco que me fez parar para pensar em tudo isso.  O nome do disco é Love Ire & Song e o responsável por essa pérola é um inglês chamado Frank Turner.

Turner foi o frontman de uma banda de hardcore chamada Million Dead e rapidamente seguiu por uma interessante carreira solo.  Love Ire & Song é seu segundo disco, de 2008, e despertou paixões na crítica especializada.

Frank Turner fez um disco clássico, baseado na cultura punk rock, mas com um resultado que extrapola essas definições de gênero.  Nota-se que seu repertório e suas referências são bem mais aprofundadas nos cânones e na iconografia do rock como músicas libertárias e enérgicas do que como mais uma gavetinha dessa cultura.  Dá pra ouvir ecos de trovadores folk, de indie rock, de hardcore e do grime, mas despido de ornamentações e reduzido ao essencial.  O esqueleto das canções baseiam-se em violão, letras diretas e um senso de construção pop invejável.  Algumas canções já contam com a banda completa.

Love Ire & Song é um disco sobre amadurecimento, sobre crescer sendo quem você é, sobre prioridades e sobre olhar para o futuro.  Suas letras são ao mesmo tempo extremamente confessionais e bastante abrangentes.  Nada é cabeçudo, panfletário ou doutrinador.  Ele compartilha com o ouvinte suas próprias experiências, deixando a interpretação livre. 
Na faixa que dá nome ao disco, ele se questiona sobre o que fazer quando suas certezas de outrora viraram fumaça (“And Punk Rock didn't live up to what I hoped that it could be, and all the things that I believed with all my heart when I was young are just coasters for beers and clean surfaces for drugs”), e segue pel

quinta-feira, 5 de julho de 2012




Nós somos uma geração privilegiada de corinthianos: nos meus 31 anos de vida assistimos a conquista dos 5 campeonatos brasileiros (lembrando que a piada que o Corinthians não tinha brasileiro foi até 1990), 3 Copas do Brasil, 9 títulos paulistas, um Mundial de Clubes da Fifa e uma LIBERTADORES.

Fico pensando naquela geração de 77, da fila, de quando a torcida só crescia sem ganhar UM ÚNICO TÍTULO POR 23 ANOS.  Sempre fomos o azarão, o underdog, o clube que nunca precisou de títulos para ter uma das mais fiéis e apaixonadas torcidas que o futebol já presenciou.

Hoje o Corinthians é um dos mais ricos, bem administrados e estruturados clubes do país.  Fez uma campanha brilhante, invicta, e conquistou o título que faltava.  É um espelho do gigante que o Corinthians se tornou, um time que hoje olha de frente para qualquer equipe do mundo.

Mas o que eu vi ontem na Paulista foi o Corinthians que não tem departamento de marketing que construa.
Claro, a expectativa do título foi grande, o sofrimento também, esse título é histórico e talvez eu chame meu filho de Sheik Escobar, mas sabemos que não é isso.  Teremos em breve um estádio moderno, que já merecemos faz tempo, mas também não é isso.  Ontem, correndo com a bandeira, lágrimas nos olhos, vi uma multidão que, além de comemorar um título de futebol - merecidíssimo - comemoravam um jeito de ser, de torcer, de se relacionar com as dificuldades e com as derrotas, mostravam de um jeito barulhento o orgulho de fazer parte desse estilo de vida.

Eu ontem comemorei o meu orgulho de ser Corinthiano!!

Foi sem dúvida uma das melhores noites da minha vida.

Acho que eu tô meio deprimido hoje, agora que a adrenalina baixou.  Blue Thursday, acho...

PS: nosso prefeito havia proibido manifestações e comemorações na Avenida Paulista.  Um clube que criou a Democracia Corinthiana não pode levar isso a sério.  Chupa, Kassab!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sobre Gatos e Pessoas (ou É Tudo a Mesma Coisa)





Estive de férias e na casa onde estava tinha um gato.

Sou do tipo fã de cachorros mas sempre achei a elegância, garbo e desapego dos bichanos bastante interessante.
Eu e o gato começamos a nos conhecer melhor, ele aparentemente foi com a minha cara e rapidamente já estávamos assistindo TV juntos, eu com o bicho no meu colo, enquanto coçava sua orelha.

Uma cena linda.

Um dia, de maneira completamente inesperada, o gato, no meu colo, arranhou a minha mão.
Minha primeira reação foi, muito puto e me sentindo traído, pensar: "Gato filha da puta!!  Tava aqui te fazendo carinho e você faz isso comigo??".
Comecei imediatamente a fazer um tratado mental de como esse bicho é traiçoeiro e pouco confiável, que não era surpresa que tanta gente não gostava de gatos e que algo que ataca a mão que o acaricia certamente tem algo de errado.
Foi no meio desse monólogo interno raivoso contra a natureza felina que percebi.

Era um gato.

Não era a primeira vez que isso acontecia e, se eu voltasse a conviver com gatos novamente, provavelmente não seria a última.

Gatos são assim, é como eles são.

Qualquer juízo de valor que eu tivesse seria patético na inutilidade de mudar qualquer aspecto de sua natureza.  Seria o mesmo que ficar puto por uma pomba voar ou por um cachorro abanar o rabo, mijar num poste ou morder outro cachorro.  É isso que eles fazem.  Eu posso dar o nome que eu quiser para o comportamento do bicho, é irrelevante.  Ele não poderia estar menos preocupado com os meus conceitos de lealdade e traição.
Nessa linha de raciocínio, lembrei de pessoas que me tinham feito mal no passado - ou que eu achei que tivessem me feito mal ou, no mínimo, não se comportaram da maneira que eu gostaria.  Pessoas em quem eu confiava e que contaram segredos meus. Ou inventaram histórias a meu respeito. Ou mentiram para mim. Daí percebi.

São pessoas.  Pessoas são assim.

Isso, claro, não se trata de uma constatação inequívoca que ninguém presta ou que estamos todos sozinhos num mundo cruel.  O ser humano é capaz de atos de extremo altruísmo e bondade, o amor existe e a coisa toda.  Também não quer dizer que não temos livre arbítrio e somos escravos de nossas naturezas mesquinhas. Nada disso.

Só não dá pra ficar indignado ou surpreso quando as pessoas agem como pessoas.

Como no caso do meu amigo gato.





PS: Eu e o gato eventualmente fizemos as pazes e ele voltou a ver TV dormindo no meu colo.
Mas ele tá fudido se vier tentar me arranhar de novo.



sexta-feira, 18 de maio de 2012

No Love Lost


Todos já passamos pela experiência de, ao achar uma foto antiga de si mesmo, ser transportado imediatamente para o momento em que a foto foi tirada: a roupa que vestíamos, com quem estávamos e em que momento nossas vidas estavam naquele momento.  
É bem possível que, hoje, olhando-nos congelados naquele instante, aquelas roupas não nos sirvam mais, as pessoas com quem estávamos eventualmente não estejam mais em nossas vidas e que estejamos em um lugar que não teríamos a menor possibilidade de imaginar que estaríamos no momento em que a foto foi batida.
Entretanto, nos identificamos e nos emocionamos ao nos vermos naquele momento.  Afinal, ainda somos nós ali, sorrindo para a câmera, com outras roupas, outras pessoas e outros sentimentos que, de maneira ou de outra, já não se justificam mais.  Mas, paradoxalmente, ainda existem vivos em algum lugar dentro de nós.

Pensei nisso ao saber que hoje é o aniversário de morte de Ian Curtis, que faleceu 32 anos atrás.

Não escuto Joy Division da maneira como costumava escutar nos anos finais de minha adolescência, porém o impacto que sua música teve em mim é algo que ficou desde então.  Foi provavelmente uma das maiores identificações que já tinha experimentado com uma expressão artística, talvez até hoje.
Tudo relacionado à banda, desde a escolha do nome à estrutura das canções, a postura dos músicos em suas apresentações e, infelizmente, a maneira como Ian Curtis escolheu terminar seus dias, até hoje é de uma coerência e verdade vistos poucas vezes no universo da música pop.

As canções refletiam com precisão a minha maneira de enxergar o mundo na época - e provavelmente muitas das impressões que carrego até hoje.  
Naquele momento de transição para uma vida adulta, subitamente ciente de que não havia nenhum pote de ouro no fim do arco-íris, mas ainda sem a bagagem emocional adequada para dar vazão àquele sentimento de perda casaram como mão e luva com as letras fortes, niilistas e profundamente pessoais de Curtis.  Sua voz transmitia uma tristeza agressiva e não-conformista.  Era punk, mas sem a pretensão de criticar o establishment ou introduzir novos valores baseados em raiva e anarquia: era a constatação viva e consciente de que o problema era outro e que não havia soluções simples.  A complexidade e a falibidade humana sempre seriam obstáculos para a obtenção de um lugar melhor para se viver.  Sem novidade, a canção mais conhecida do Joy Division possui o pungente título de Love Will Tear Us Apart.

O legado de Ian Curtis e do Joy Division foi fundamental para tudo o que seria da música pop nos próximos trinta anos (sem contar ainda a trajetória do New Order, fundada pelos remanescentes da banda após o suicídio de Curtis em 1980).  
Para mim, ficou uma voz que me vez enxergar o meu mundo com olhos abertos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Em 2012



  • Em 2012, Lana Del Rey vai liderar um monte de paradas quando sair o disco novo e ela vai ser apontada como a nova salvação da música.
  • Em 2012, ninguém vai aguentar mais olhar para todos os produtos, de bonequinhos a caixas de cereal, com os personagens dos Vingadores.
  • Em 2012, vai chover pra cacete, vai morrer um monte de gente e as autoridades responsáveis se mostrarão "perplexas e surpresas pela quantidade de chuva".
  • Em 2012, o dubstep vai estar tão morto quanto o planking.
  • Em 2012, o Brasil vai chegar cheio de moral nas Olimpíadas e vai voltar com um bronze numa modalidade que ninguém ouviu falar.
  • Em 2012, algum DJ de 17 anos com um corte de cabelo questionável vai revolucionar a música criando uma "cena" baseada em algum ritmo conhecido com um andamento ligeiramente diferente.
  • Em 2012, todo mundo vai dizer que só gostava da Lana Del Rey antes dela ter dinheiro para fazer clipes com tigres brancos.
  • Em 2012, Bruce Springsteen vai ser considerado o melhor show do mundo.
  • Em 2012, nerds atingirão o orgasmo cósmico e terão crises de choro quando o filme novo do Batman estreiar.
  • Em 2012, nerds inundarão blogs com textos complexos e cheios de mimimi sobre quanto o segundo filme do Batman era melhor.
  • Em 2012, Lana Del Rey, após uma mal-sucedida turnê européia, voluntariamente vai para rehab.
  • Em 2012, mais um integrante do Titãs deixa a banda.  Paulo Miklos fica na dúvida se ele ainda está numa banda ou em carreira solo.
  • Em 2012, Michel Teló será convidado para uma apresentação para Obama na Casa Branca.  Os patriotas de plantão ficarão com os olhos mareados e sussurrarão: "Obrigado por representar o Brasil lá fora, Michel!".
  • Em 2012, Danger Mouse produzirá mais um disco foda.
  • Em 2012, Luan Santana lança clipe com Ricky Martin.
  • Em 2012, Lana Del Rey se casa numa festa no sul da França, que dura três dias, com o domador porto-riquenho dos tigres brancos do clipe.  Todos os jornalistas tinham pulseirinhas VIP.
  • Em 2012, Los Hermanos anunciam mais 350 shows "apenas para confortar os fãs" e que eles "não tem nenhuma intenção de voltar".
  • Em 2012, Marcelo Camelo já pode legalmente levar Malu Magalhães à Disney e o casal será capa da Caras com orelhinhas do Mickey.
  • Em 2012, uma sex tape de Lana Del Rey acidentalmente cai na internet.
  • Em 2012, alguma banda antiga, que já acabou faz tempo e sempre foi meio meia-boca, vai receber uma proposta monetária indecente e vão voltar fazendo uma turnê interminável tocando seu álbum de estréia na íntegra e vai lotar tudo que é lugar - o que dificilmente conseguiam fazer quando ainda estavam na ativa.
  • Em 2012, Lana Del Rey se separa alegando diferenças irreconciliáveis. "Eu não falo espanhol", alega a cantora.
  • Em 2012, a Norah Jones lança mais um disco bom.
  • Em 2012, o visual punk-gótica-lésbica-descolada de Lisbeth Salander pós-filme vai ser tornar tão onipresente que até a Constanza Pascolato vai ser fotografada de coturno e piercing na boca.
  • Em 2012, alguma subsubcelebridade vai inventar alguma coisa muito perturbadora para se exibir no carnaval.
  • Em 2012, Lana Del Rey vai se reinventar como compositora folk, cabelos pretos, franjinha, apenas um violão e vai mudar de nome para Kat Power.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Minha trilha sonora em 2011

Eu gosto mil vezes mais do Last.fm do que do Facebook.  Eu acredito que se você realmente quiser conhecer alguém, uma olhada no que ela gosta de escutar - se é que gosta de escutar alguma coisa - já diz bastante sobre ela.

Toda a preguiça que eu tenho com o Facebook, de "fulano likes this", correntes, videozinhos engraçadinhos, uns protestos idiotas, todo mundo feliz e sorridente ou indignado com "esses absurdos todos que estão por aí" me falta na hora de ficar fuçando no Last.  Ali sim eu perco meu tempo deixando meu perfil atualizado.

Agora que o ano termina, segue abaixo o 10 discos que eu mais escutei durante esse ano esquisito que foi 2011:

1.  Danger Mouse & Daniele Luppi - Rome (347 execuções)

Danger Mouse é o cara e 2011 foi um ano muito bom para ele.  Além desse Rome, ele ainda produziu El Camino, do Black Keys, que acabou de sair e é bom demais também.  Provavelmente só não entrou nessa lista aqui por falta de tempo.
Rome é a fictícia trilha sonora de um filme imaginário de Sergio Leone que nunca foi filmado.  É spaguetti western e não é.  É retrô e não é.  É instrumental, é pop e é foda!  É o melhor disco desse ano, na minha opinião.
Jack White - outro para quem 2011 fez muito bem - e Norah Jones, aquela linda, emprestam suas vozes para algumas faixas.

Faixa favorita: Two Against One


2.  Renato Godá – Canções Para Embalar Marujos  (204 execuções)


Esse não é desse ano, é de 2010, mas eu continuo escutando da mesma maneira desde então.  Renato Godá é um cara de muito bom gosto, para os arranjos, os timbres, as atmosferas de suas canções e de suas letras.  É um disco que presta homenagem ao mestres como Leonard Cohen, Tom Waits e Serge Gainsbourg mas ainda mantém a cabeça erguida com personalidade e luz própria.
Diz que em 2012 sai o disco novo.  Aguardo ansiosamente.

Faixa favorita: A Cem Por Hora


3.  Paolo Nutini – Sunny Side Up (198 execuções)


Disco de 2009.  O segundo do moleque escocês com nome italiano e descrito pela crítica da época como um "suicídio comercial", aqui ele cria uma personalidade única na interpretação das canções, num sotaque às vezes irreconhecível, numa divisão silábica toda quebrada e nuns timbres esquisitos às vezes, mas que, depois de algumas escutadas, vira ouro puro.

Faixa favorita: Candy


4. The Black Keys – Brothers  (165 execuções)


Provavelmente a melhor banda por aí no momento, numa fase fantástica.  Esse ano lançaram El Camino e em 2010 foi a vez desse Brothers, dois puta discos.  Com a banda formada apenas por um baterista e um guitarrista, o som que sai é moderno e atemporal, com uma pegada blueseira e garageira assobiável e fácil de bater o pezinho junto.  Além de seguirem muito bem a cartilha Foo Fighters de clipes-engraçadinhos-bem-feitos-pra-cacete.  Clássico!

Faixa favorita: Howlin' for You


5.  The National – High Violet  (149 execuções)


Pensando melhor, acho que passei 2011 escutando muita coisa de 2010.  Que pouco moderno.
Esse disco também é incrível.  É o canto do macho perdido no século 21.  A voz de barítono de Matt Berninger, com aquele eco de Joy Division e aquele baixão pós-punk e letras ao mesmo tempo muito pessoais e bastante crípticas, traz para os anos 10 aquela urgência, confissão e dúvida de uma maneira sincera e direta.  Pra pensar na vida pela janela do carro.

Faixa favorita: Sorrow


6.  Mumford & Sons – Sigh No More  (146 execuções)

Outro disco "velho" que tem rolado non stop desde 2009 e a banda que eu tive o grande prazer de assistir ao vivo.  Sigh No More é daqueles discos de colocar embaixo do travesseiro.  É o disco de estréia deles, com letras inteligentes, uma banda nova mas com personalidade de veterana, arranjos folk mas sem ser cabeçudo ou "olha-como-somos-bacanas-e-gostamos-de-bob-dylan".  Foi a banda que fez o banjo ser legal.
Eles estão enrolando com o disco novo faz tempo.  Torço demais para eles não fazerem nenhuma cagada e estragarem uma carreira que tem tudo para ser brilhante.

Faixa favorita: Roll Away Your Stone


7. Criolo – Nó na Orelha  (129 execuções)


Polêmico pelos motivos errados, sem dúvida esse foi um dos melhores discos brasileiros do ano.  As picuinhas da "nova cena" ou "novos movimentos sambinhas" devem ser ignorados e o disco escutado com atenção.  A produção fodaça de Daniel Ganjaman faz a cama para Criolo criar um som estiloso sem se prender a muitos rótulos ou estilos, embora a linguagem e a estética do rap meio que criam a unidade do disco inteiro.

Faixa favorita: Subirusdoistiozin


8 . Ray LaMontagne and the Pariah Dogs – God Willin' & The Creek Don't Rise  (118 execuções)


Outro disco de 2010.  Ray LaMontagne é daqueles cantores que realmente sabem cantar.  Sua voz é carregada de sentimento e profundidade e ele sabe colocá-la para fazer a canção funcionar.  Dessa vez ele se juntou ao Pariah Dogs e foi juntar a fome com a vontade de comer.  Aqui ele sai um pouco do folk introspectivo que ele normalmente pratica e vai respirar novos ares.

Faixa favorita: Beg Steal or Borrow


9. Aloe Blacc – Good Things  (110 execuções)


Esse Aloe Blacc é daqueles caras que são tão talentosos que dão até raiva.  Naquela linha de caras como Marvin Gaye e Isaac Hayes, aqui ele mostra que aprendeu bem com os mestres e dá uma aula da canto, arranjos sofisticados e bom gosto na escolha de repertório.  As canções de amor intercalam-se com as de críticas sociais, sem nunca cair no óbvio ou no panfletário.

Faixa favorita: You Make Me Smile


10.  Karen Elson – The Ghost Who Walks  (107 execuções)


Eu disse que 2011 tinha sido um ano tão bom para o Jack White pós-White Stripes que até o disco da ex-mulher, que ele produziu, escreveu letras e tocou bateria, é excelente!  Karen Elson é muito muito gata, muito estilosa e sua voz se encaixa perfeitamente na atmosfera do disco e das canções que ela interpreta.  Jack White cria aquela atmosfera retrô-analógica-muderna com uma personalidade que fazia tempo que ele não demonstrava.  Difícil saber se a moça sobrevive a um segundo disco sem o ex-maridão, mas de qualquer forma, The Ghost Who Walks é uma prova indiscutível de talento da supermodel.

Faixa favorita: 100 Years From Now

E em 2011?  O que você escutou de bom?

domingo, 23 de outubro de 2011

Bad As Me


Eu considero Tom Waits um sopro de lucidez nesses tempos surreais em que vivemos.  


Isso falando de um cara que faz uma música que não faz concessões, barulhenta, intensa mas absolutamente autêntica e original, diz bastante sobre a situação de música e arte por aí.


Uma observação do sr. Waits publicada hoje no The Guardian, sobre a suposta "liberdade" de escolha que temos hoje:



"They have removed the struggle to find anything. And therefore there is no genuine sense of discovery. Struggle is the first thing we know getting along the birth canal, out in the world. It's pretty basic. Book store owners and record store owners used to be oracles, in that way; you'd go in this dusty old place and they might point you toward something that would change your life. All that's gone"



Se tiver um minuto, vá atrás de suas entrevistas.  Qualquer uma.  De qualquer época.


Tom Waits lançou um disco novo esses dias, chama-se Bad As Me.  É uma coleção de 13 canções maravilhosas, com um agudo senso estético de desespero e beleza em meio ao caos.  Ele está ficando melhor com a idade e com o tempo, achou sua voz e o que quer dizer e consegue expressar-se com uma aparente simplicidade que apenas décadas de trabalho e de lapidações de canções conseguem fazer, como acontece apenas com os gênios.  E eu nunca uso essa palavra.


Ninguém vai escutar esse disco.  
Quem, por acaso tentar pelo hype em torno dele, vai desistir na terceira música, perguntar: "Por que ele canta assim?? Que coisa esquisita", apertar o shuffle do iTunes, que vai escolher uma música entre as milhões que estão ali, cair em qualquer merda, que pode ser de Lady Gaga a Lady Antebellum, enquanto fica no Facebook, recebendo e repassando coisas engraçadinhas, como um gato tocando piano ou a dica do seu horóscopo.


O interesse ou a vontade de se deixar impressionar pelo novo foi substituída pela necessidade de estar conectado e de dar risada antes de todo mundo sobre o último vídeo ou polêmica na internet, que pode ser uma atriz bêbada falando merda na área vip de um festival de música ou uma mina utilizando pão e maionese de maneira pouco ortodoxa.


Música virou barulhinho ambiente, algo que fica ali tocando enquanto você está ocupado fazendo outra coisa.  
Arte virou distração, uma coisa para te distrair e te relaxar.  Tem que ser fácil, mastigado, estrofe-estrofe-refrão-bridge-estrofe-refrão, simples, assobiável, capítulos curtos, engraçadinho, com um mercado específico e definido, muita figura e com um final que não te surpreenda.  
"Já temos para nos preocupar na vida, vou querer ver filme que me faça ficar triste??".  


Enquanto isso, Tom Waits está por aí, fazendo o que faz melhor.  
Suas canções e seus discos também ficarão, naquela prateleira empoeirada lá no fundo do sebo com a plaquinha "música de velho / música difícil".


Uma tristeza.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Free Rafinha

Para começar, eu não gosto do Rafinha Bastos.
As piadas do "homem mais influente do Twitter" costumam sempre despencar para o mau gosto, o palavrão gratuito e o riso nervoso e fácil do chocar simplesmente pelo chocar.  Da mesma forma, eu tenho sempre a tendência de não gostar de nada que se assemelhe vagamente a essa nova onda de shows de stand up brasileiros.  O ponto não é que me ofendem de qualquer forma ou que eu acredite que humor tem que ser feito de um jeito ou de outro.  Eu simplesmente acho chato pacas.

Comédia stand up é provavelmente das mais difíceis de serem feitas por necessitar de um ritmo, um vocabulário e de uma gama de idéias que normalmente as pessoas que se arriscam no gênero no Brasil simplesmente não possuem.
Claro que existem milhões de humoristas sem graça tentando fazer stand up em qualquer lugar, Estados Unidos incluso.  Porém, temos que admitir que os americanos, certamente os pais do formato, mostraram o que essa forma de humor tem de melhor: Eddie Murphy nos 80, George Carlin, Lenny Bruce e por aí vai elevaram o gênero stand up ao que ele tem de melhor.  E não se engane: nas apresentações de todos esses citados tem muito mais palavrão e termos chulos do que em qualquer apresentação de Rafinha ou congêneres.  A diferença é que, nesse caso, as palavras tem uma razão muito clara de estarem onde estão.  E isso é simplesmente uma opinião.

O humor brasileiro sempre foi calcado em gêneros, personagens.  A bicha, o negro, o gordo.  Nós sempre achamos mais engraçado rir do outro do que rir de nós mesmos, que é a alma da comédia stand up, aliás.  Rir do deficiente, da loira burra, do português é muito mais legal, certo?  Agora, veio falar de mim, a coisa aperta.
Lembra daquele video do YouTube que o "comediante de pé" brasileiro chega no palco, aponta o dedo pra alguém da platéia, chama um cara de gordo, ele sobe no palco e dá um soco no artista em questão?  Por aí....

Como todo mundo, tenho acompanhado a saga Rafinha Bastos x Wanessa Camargo e family.  Se você esteve em Marte nos últimos tempos: a moça tá grávida e Rafinha, querendo dizer que ela estava gostosa, disse em rede nacional, na bancada do programa CQC do qual é apresentador que "comeria ela e o bebê".  Uau!!  Engraçadíssimo, certo?  Até aí nenhuma novidade.
Um parênteses: a piada não é mais sem graça que qualquer uma do Zorra Total ou da Escolinha do Professor Raimundo que, bem lembramos, tinha entre seus personagens a gostosa burra, o judeu, o caipira ignorante, o árabe avarento e o índio, para citarmos alguns clássicos do repertório humorístico brasileiro.
A razão de considerarmos esse programa um clássico do humor brasileiro e a piada de Rafinha um caso de polícia me escapa agora.

Voltando à repercussão do caso.  Aparentemente, ele mexeu com a pessoa errada.  A tal da Wanessa é filha de um cantor sertanejo muito famoso e casada com um outro tal de Marcus Buaiz que, dizem, é um empresário fodão, amigo do Ronaldo Nazário (não confundir com o Ronaldo Fenômeno da Seleção e do meu Corinthians), influente na TV Bandeirantes e num monte de outros lugares e foi aí que o Rafinha se fudeu: foi afastado do CQC, perdeu contrato de patrocínios e foi hostilizado pela "opinião pública" como o novo Herodes do pedaço.  Ele já tinha se metido em outras polêmicas anteriormente com outras piadas igualmente estúpidas de estupradores e mulheres feias e de orfãos no dia das mães, que nem valem a pena serem repetidas.

Se a situação e a punição de Rafinha já eram esquisitas antes (a Bandeirantes não contratou o cara justamente por ele ser mal educado e desbocado? Humm...) a cereja do bolo foi a notícia de que Wanessa, o maridão e o filho que ainda nem nasceu (!) entraram com uma ação de indenização e danos morais contra o humorista no valor de CEM MIL REAIS (!!!!).

Ok, pausa.

Tudo bem, vivemos numa sociedade em que qualquer um pode processar qualquer um por qualquer motivo que se ache justificado.  Isso é um direito inalienável e necessário para o funcionamento de uma sociedade civilizada.  No caso, a honra da família foi supostamente atingida e eles consideram que cem paus pagaria essa honra maculada. Mas, peraí, sou eu ou tem alguma coisa errada quando um humorista perde o emprego, é processado e hostilizado por fazer o que lhe pagam para fazer??

Tenho acompanhado a questão de perto nos meios de comunicação e redes sociais e estou curioso com o desenrolar do caso.  De uma forma ou de outra, a situação tem implicações éticas muito delicadas, resvalando em preceitos fundamentais como LIBERDADE DE EXPRESSÃO que, num país com uma democracia tão incipiente como a nossa, toma proporções muito mais complexas e graves.

Alguém, em sã consciência, realmente acredita que Rafinha Bastos tenha algum desejo de manter relações sexuais com um recém nascido?  Acredito que não.  O formato no qual ele fez a declaração era um programa de humor no qual, entende-se, não é para ser levado a sério.  Você não gosta do humor que Rafinha Bastos faz?  Não assista seus programas, não compre seu DVD, não vá a seus shows, ignore que ele existe.  Isso é a maravilha da democracia: você não é obrigado a consumir nada que considere ofensivo ou que não lhe agrade (falando de Brasil, muitas aspas aqui).

Se Wanessa e cia ganharem a ação, isso abre precedente para que?  Para que artistas tenham que entregar suas obras para aprovação antes de levá-las a público para não correr o risco de ofender os interesses de terceiros?  Ofender minorias tudo bem, desde que o lobby delas não seja forte o suficiente para supostamente se defenderem como os paladinos dos bons costumes de plantão estão fazendo?  De qualquer forma, além da óbvia hipocrisia do caso, eu sinto um cheiro nojento de censura nessa história toda.

Não estou defendendo Rafinha Bastos nem nenhum dos merdas que fazem o CQC.  Entretanto, quero pensar que eu moro num país onde eles podem dizer o que quiserem e falar o que quiserem enquanto existirem pessoas que querem ouvir o que eles tem a dizer ou achar engraçadas suas piadas.  Eu sei o tipo de humor que eu consumo - engraçado para uns, nem tanto para outros - e que EU tenho a liberdade de dizer um "vai tomar no cu" e mudar de canal instantaneamente cada vez que eu vejo aqueles caras de terno preto fazendo propaganda de refrigerante enquanto xingam o Congresso na minha TV.

Não quero ninguém decidindo isso por mim.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Daytripper


Algumas obviedades que você provavelmente já ouviu por aí:
  1. Fábio Moon e Gabriel Bá são dois dos maiores artistas de quadrinhos brasileiros desde...  Bem, desde sempre.
  2. A qualidade e a diversidade que o gênero quadrinhos adquiriu nas últimas décadas e sua conseqüente diversificação de mercado permitiu que diferentes tipos de histórias pudessem ser contadas nesse formato, com resultados mais ou menos bem sucedidos.
  3. O Brasil não oferece nenhum reconhecimento a muitos dos talentos que tem, fazendo com que muitos deles tenham primeiro um reconhecimento “lá fora” do que por aqui.

Tudo verdade.

Quem acompanha o trabalho de Moon e Bá sabe do talento que os irmãos gêmeos sempre demonstraram em seu trabalho.  Porém, sinto que ainda faltava uma obra definitiva, uma união efetiva entre a arte e o texto, que justificasse a linguagem de arte seqüencial que eles inegavelmente dominam, onde o texto e a arte se complementam harmoniosamente, sem um se sobressair ao outro.  Daytripper, que acaba de ser lançada no mercado brasileiro pela Panini, veio para preencher essa lacuna.   





A obra foi originalmente lançada no mercado americano, pela Vertigo, selo de quadrinhos adultos da DC Comics.  Foi vencedor de diversos prêmios, inclusive o respeitado Eisner como melhor minissérie de 2011.  
Já no Brasil....

Enfim...

A obra é um primor em qualquer aspecto que se analise: a arte é arrebatadora e se encaixa perfeitamente no ritmo e fluidez da história.  Os personagens são humanos, demasiadamente humanos, e vamos acompanhando e nos identificando, através de suas vidas, o quanto temas como família, amizade, amor e morte são caros e relevantes a todos nós.
O fato da história se passar no Brasil, em diversas cidades, passa ao leitor brasileiro uma sensação de familiaridade ainda maior.  Mérito total da arte, os detalhes das pessoas, arquitetura e hábitos de várias cidades brasileiras, aumenta significantemente para nós a intimidade e identificação com a obra.



A narrativa da história é ousada, abusando de regressões temporais, cortes, idas e vindas no desenvolvimento da história, mas que nunca fica confuso, pretensioso ou difícil de acompanhar.  Nesse caso, ela serve justamente para desenvolver as complexidades e profundidades dos personagens, especialmente do protagonista Brás Oliva Domingos.  Outro ponto em que a dupla acertou em cheio!
A obra foi originalmente publicada como uma minisérie em dez edições.  A divisão dos capítulos sempre deixa o leitor com um nó na garganta quando um termina e outro começa.  Nos faz parar para coçar a cabeça e nos lembrar que todo dia pode ser um dia daqueles, onde tudo pode mudar e que não conseguiremos esquecer.

Não vou fazer um resumo do livro aqui porque creio que reduziria demais o conjunto de idéias profundas que Daytripper alcança. 


Saiba apenas que aqui ninguém tem super poderes ou vem de outro planeta.  Aqui as pessoas vivem suas vidas da melhor maneira que conseguem, tentando se relacionar com os que amam do jeito que sabem.  Como eu.  E como você.

É um trabalho muito bonito, que realmente emociona pela honestidade e carinho com que os personagens se desenvolvem e seguem seus destinos.   Uma obra de arte!



terça-feira, 9 de agosto de 2011

London Calling



Nesses dias estranhos temos a sensação da história acontecendo diante de nossos olhos, a transformação parece inexorável e definitiva e temos a certeza de que o mundo não vai mais ser o mesmo.
Não é simplesmente um evento isolado, numa cidade distante.  É um espírito no ar gerando mudanças em todos os lugares ao mesmo tempo.

A história ensina que as grandes transformações, o fim e o início de novos ciclos, geralmente não ocorrem por influências externas, mas pelo próprio sistema que corrói a si mesmo até desmoronar sob seu próprio peso.

Esses tempos me fazem pensar que uma nova forma de viver é possível, que as coisas não foram "sempre assim".  Destruição e reconstrução são inevitáveis como o dia e a noite.

É uma época boa de se estar vivo.

sábado, 6 de agosto de 2011

The girl next door

 
Sempre gostei demais da Nancy Sinatra.  Uma mulher linda, cheia de personalidade e atitude, um rosto e voz suaves mas com um olhar misterioso, que esconde segredos terríveis. 
É aquela construção agridoce, que esconde uma aspereza por baixo da melodia assobiável.  A maquiagem borrada sobre o rosto de anjo.
Ela me conquistou definitivamente com o cabuloso disco Nancy Sinatra, de 2004.  A turma que ela conseguiu juntar nesse disco é brincadeira: Morrissey (que é obcecado por ela desde a adolescência), Jon Spencer (meu mais novo guitar hero), Thurston Moore, Jarvis Cocker e a turma do U2, pra citar alguns.
A maior parte de sua produção musical foi feita no meio dos 60 até o começo dos 70.   Portanto, em 2004, Nancy, indiscutivelmente ainda cheia de talento, mojo e experiência, já era uma respeitável senhora, e com uma capacidade de seduzir - os olhos e ouvidos - que os anos transformaram em admiração e respeito.

Porém, geração Y, seus problemas acabaram.

Estava à toa na vida e outro dia, por acaso, vi num post do Popload a bela figura de Lana Del Rey.  O Lucio Ribeiro é um cara que sabe das coisas, é divertido, porém seu estilo é hiperbólico demais e quem segue os textos dele sabe que tem que pensar algumas vezes antes de comprar todas as "maravilhas" que ele indica.

Com Lana Del Rey, o cara acertou em cheio. 



 Ela tem 25 anos e ainda está gravando seu primeiro disco.  Suas poucas músicas disponíveis já mostram uma artista cheia de estilo, nuances e camadas, pop ao extremo mas com aquele jeito de quem tem algo mais a dizer.  Tem aquele mesmo brilho no olho sacana/inocente que popularizou a filha do Frank no passado. 
É o clichê do universo pop, mas essa mixed message sempre funciona.

Os dois videos abaixo são sensacionais e as músicas são incríveis.  A opção estética pelo antigo em contraste com o novo, desenho animado e video game, gera uma estranheza que torna difícil desviar o olhar. 
Ela ensina que não é preciso rebolar nem ter que se vestir "sensual" para seduzir.  O que faz um cara perder a cabeça, sabemos, é um olhar, um sorriso roubado, aquela arrumada no cabelo, a girl next door. 
Mas isso é só para quem pode, não é para quem quer.

Esperando o disco novo como criança espera o natal.

Os videos.  Enjoy.



Kinda Outta Luck


Video Games

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Like a Rolling Stone





Fui convidado por uma amiga para uma festa na casa de um vizinho dela no Lago Norte, em Brasília.  As festas do vizinho sempre eram bem animadas, segundo ela, a casa era grande, sempre tinha bastante cerveja gelada e, a melhor parte, o vizinho tocava numa “banda cover dos Rolling Stones”.  Não estava fazendo nada mesmo, vamos nessa.

O som estava alto.  Conseguia escutar You Can´t Always Get What You Want no quarteirão de trás da casa.  Pela altura da música, já imaginava que estava indo para uma festa na Mansão da Playboy.  Pura ilusão.  Quando chegamos, o cenário era bem menos excitante: uma casa grande, bonita, mas com meia dúzia de gatos pingados em pé com frio, chacoalhando os joelhinhos, enquanto a banda tocava.  Minha amiga não conhecia ninguém - eu menos ainda.  Roubada, pensei.

Nos olhamos e rapidamente corremos em direção à tina de cerveja.  Realmente estava gelada.  Achamos um canto próximo à banda e começamos a assistir ao show.

Aqui coloco um parênteses.

Nunca entendi muito bem esse negócio de banda cover.  Na minha cabeça, banda cover é coisa de moleques de 15 anos, fãs de punk rock, que não sabem tocar direito e querem tirar uma onda tocando um som que gostam e que não seja muito difícil.  O barato de ter banda é tocar as suas próprias músicas, foi o que sempre pensei.

Enfim...

Essa banda que assisti no último sábado era tudo menos amadora.  Os músicos eram excelentes, pessoal mais velho, os equipamentos e instrumentos eram de primeira, tudo bem equalizado, os caras tinham um repertório de quem sabia do que estava falando.  Não sou nenhum grande fã de Rolling Stones, mas eu sei quando as versões são boas ou não.  E a deles era excelente.  Tocaram todos os hits, umas antigas e “um pouco de Stones anos 90 para vocês” rigorosamente igual às versões originais.
E a postura dos caras no palco improvisado foi o que mais me chamou a atenção.  Embora eles estivessem tocando em casa - o tal do vizinho era o Ron Wood do rolê - para meia dúzia de amigos, a impresão é que eles estavam tocando no Rock in Rio: “quem sabe agora canta junto!”, “tá bonito” e vários “oh, yeah” bem encaixados serviam para chamar a massa para a celebração rock n´roll.  
Mas o que me deixou passado foi o guitarrista, o Keith Richards brasileiro.  Beirando seus 60 anos, calça jeans e blusa de moleton cinza, meio careca de óculos, o cara parecia aqueles tiozinhos bem caretas que a gente encontra em repartições públicas (estando em Brasília, a possibilidade é real).  E o cara era um monstro na guitarra!  Sem sacanagem, nesse universo de guitarrista de rock clássico, estilo guitar hero, solos com milhares de notas durante 15 minutos e o caralho, ele era o cara.  

Nenhum dos caras da banda vive de música, fiquei sabendo.  O tesão deles é justamente emular, nota por nota, trejeito por trejeito, a atmosfera e a música de seus ídolos, mais do que se expor ou se desgastar com trabalhos autorais.  Pelo que vi, eles devem ter acumulado milhares de horas de ensaios e treinamento e devem ter desembolsado uma bela grana em equipamentos para atingir o som, a técnica e o entrosamento que demonstraram.  

Todos nós já vimos milhares dessas bandas cover pelos barzinhos da vida, bandas de formatura ou de casamentos, que tocam, melhores ou piores, as músicas que um determinado público quer ouvir, sem que role necessariamente uma identificação dos músicos com o que estão tocando.
No sábado, eu vi o contrário.  Uma banda se divertindo, sábado à noite, em casa, com poucos amigos - acho que se não tivesse ninguém a execução deles seria a mesma - replicando um som com os quais eles claramente são apaixonados.  Fez parar para pensar.
 
No fim das contas, foi uma noite divertida.  A banda me devolveu por algumas horas uma fé no rock n'roll que já andava meio adormecida para mim.  E nem eu acreditei quando me vi fazendo o famoso corinho ("uhh uhh") de Sympathy for the Devil às 3 horas da manhã.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Everyone Loves You When You're Dead



Neil Strauss é um cara que sabe das coisas.

Jornalista cultural de diversas publicações como o New York Times, Rolling Stone, Spin, entre várias outras, ele dominou o formato de entrevistas oferecendo ao leitor um material muito mais profundo e original do que um informe publicitário sobre o último produto que determinado artista está divulgando como é o lugar-comum no jornalismo musical atual. Em suas conversas francas e diretas, o que importa é justamente o que não está evidente nos releases ou falsas imagens construídas pelos marketeiros de plantão.
Ele também é co-autor da deliciosa biografia do Mötley Crue (The Dirt) e da antiga rainha do cinema pornô Jenna Jameson (How to Make Love Like a Pornstar).

A principal característica de seu trabalho é a compaixão e a empatia que ele demonstra com seus entrevistados. O aparente entendimento de que as pessoas são como são e que não há nada a fazer a não ser tentar entendê-las dá aos entrevistados uma tranquilidade de abrir-se sobre diversos temas que normalmente não lhes são perguntados.
Strauss nunca tenta parecer fazer parte da turma ou mais inteligente ou descolado que as pessoas que lhe dão seus depoimentos. Com isso, ele consegue verdadeiras pérolas!

Seu último livro, Everyone Loves You When Your’re Dead, é fantástico.

A lista dos personagens que dão seu depoimento no livro é quase ridícula: Bruce Springsteen, PJ Harvey, Leonard Cohen, Johnny Cash, Eric Clapton, Marilyn Manson, Grateful Dead, Pink Floyd, Courtney Love, Brian Wilson, Dolly Parton, Snoop Dogg, Oasis, Madonna, Trent Reznor, Lady Gaga, Korn, Britney Spears, Led Zeppelin, the Who e mais uma infinidade de artistas, maiores e menores, alternativos ou comerciais, famosos e anônimos.
Strauss foi consultar diretamente as suas gravações originais das entrevistas e, sem a tesoura editorial que existe nos grandes veículos, pôde tecer uma linha de raciocínio e uma narrativa lógica baseada em diversos trechos de entrevistas, que vão e voltam numa edição ágil e quase cinematográfica, e que expõe diversas opiniões e impressões sobre um mesmo tema, às vezes constrastantes, outras complementares.
O autor nos coloca na cena, nos conta o que está acontecendo enquanto aquela conversa de desenvolve. Sentimos a mesma antipatia do entrevistador enquanto tenta manter uma conversa minimamente coerente com um Julian Casablancas completamente bêbado, chato e alheio ao papo, por exemplo.

Neil Strauss parte da opinião que qualquer entertainer, qualquer ser humano que resolva assumir um papel de protagonista nesse jogo do showbusiness, o arquétipo do “ídolo”, a vida na estrada, a dinheiro, os bajuladores, as diferentes variações do trinômio “sexo, drogas e rock n’roll”, possui alguma forma mais ou menos séria de disfunção - ninguém pode olhar para gente como Marilyn Manson ou Lady Gaga e achar que eles operam na mesma frequência das pessoas como nós que fazem fila no banco ou no cinema.
E tantos deles são tão infelizes, fizeram tanta mas tanta merda na vida, que quase lamentamos as escolhas que eles fizeram e, de certa forma, nos fazem repensar as nossas próprias, de uma forma ou de outra.

Num dos meus capítulos favoritos, o tema que norteava todas as conversas era justamente sobre essa inadequação e essas formas de “loucura” que conduzem um processo criativo. É quase patético ler a entrevista do multi-milionário-agora-ganhador-do-Oscar Trent Reznor, do Nine Inch Nails, discorrendo sobre os malefícios da fama, do quanto ele sentia-se deslocado no mundo, com todo o dinheiro que ele ganhava e que, segundo o próprio, o fazia agir como um asshole com os outros, enquanto vemos entrevistas com outros músicos, igualmente problemáticos mas que verdadeiramente tiveram esgotamentos nervosos, ficaram anos internados em instituições e que nunca realmente conseguiram se encaixar no mundo.
E sem um publicist ou gravadora ganhando em cima.

Para quem gosta desse universo, Everyone Loves You When Your’re Dead é uma aula de jornalismo musical e de cultura pop. É o que acontece nos bastidores, são as pessoas reais (ou uma versão próxima disso) que existem por baixo das imagens que estamos acostumados a consumir.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Terceiro ato

Já que estou justamente nos tais 30...


Aos dez anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos vinte. Aos vinte, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de trinta. (Convenhamos, a apenas seis primaveras da oitava série você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro - já não tão - cabeludo me atestavam, no espelho; eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de homo sapiens sapiens. E, sabe o que? Fiquei bastante contente com a descoberta.


A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e quando o faz por outras vias, como, por exemplo, pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias, para a prova da FUVEST.


Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos trinta, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais pra uma várzea do Tamanduateí do que pro tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto - a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na Educação Física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-Lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.


Se você está em torno dos trinta, pode lutar durante os próximos quarenta anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver afim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa pra fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.


Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus vinte e nove: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam as trinta”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto - sobre o qual não convém falar, por estar muito lá pra frente, só bem depois dos noventa. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte...

Antonio Prata