quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Em 2012



  • Em 2012, Lana Del Rey vai liderar um monte de paradas quando sair o disco novo e ela vai ser apontada como a nova salvação da música.
  • Em 2012, ninguém vai aguentar mais olhar para todos os produtos, de bonequinhos a caixas de cereal, com os personagens dos Vingadores.
  • Em 2012, vai chover pra cacete, vai morrer um monte de gente e as autoridades responsáveis se mostrarão "perplexas e surpresas pela quantidade de chuva".
  • Em 2012, o dubstep vai estar tão morto quanto o planking.
  • Em 2012, o Brasil vai chegar cheio de moral nas Olimpíadas e vai voltar com um bronze numa modalidade que ninguém ouviu falar.
  • Em 2012, algum DJ de 17 anos com um corte de cabelo questionável vai revolucionar a música criando uma "cena" baseada em algum ritmo conhecido com um andamento ligeiramente diferente.
  • Em 2012, todo mundo vai dizer que só gostava da Lana Del Rey antes dela ter dinheiro para fazer clipes com tigres brancos.
  • Em 2012, Bruce Springsteen vai ser considerado o melhor show do mundo.
  • Em 2012, nerds atingirão o orgasmo cósmico e terão crises de choro quando o filme novo do Batman estreiar.
  • Em 2012, nerds inundarão blogs com textos complexos e cheios de mimimi sobre quanto o segundo filme do Batman era melhor.
  • Em 2012, Lana Del Rey, após uma mal-sucedida turnê européia, voluntariamente vai para rehab.
  • Em 2012, mais um integrante do Titãs deixa a banda.  Paulo Miklos fica na dúvida se ele ainda está numa banda ou em carreira solo.
  • Em 2012, Michel Teló será convidado para uma apresentação para Obama na Casa Branca.  Os patriotas de plantão ficarão com os olhos mareados e sussurrarão: "Obrigado por representar o Brasil lá fora, Michel!".
  • Em 2012, Danger Mouse produzirá mais um disco foda.
  • Em 2012, Luan Santana lança clipe com Ricky Martin.
  • Em 2012, Lana Del Rey se casa numa festa no sul da França, que dura três dias, com o domador porto-riquenho dos tigres brancos do clipe.  Todos os jornalistas tinham pulseirinhas VIP.
  • Em 2012, Los Hermanos anunciam mais 350 shows "apenas para confortar os fãs" e que eles "não tem nenhuma intenção de voltar".
  • Em 2012, Marcelo Camelo já pode legalmente levar Malu Magalhães à Disney e o casal será capa da Caras com orelhinhas do Mickey.
  • Em 2012, uma sex tape de Lana Del Rey acidentalmente cai na internet.
  • Em 2012, alguma banda antiga, que já acabou faz tempo e sempre foi meio meia-boca, vai receber uma proposta monetária indecente e vão voltar fazendo uma turnê interminável tocando seu álbum de estréia na íntegra e vai lotar tudo que é lugar - o que dificilmente conseguiam fazer quando ainda estavam na ativa.
  • Em 2012, Lana Del Rey se separa alegando diferenças irreconciliáveis. "Eu não falo espanhol", alega a cantora.
  • Em 2012, a Norah Jones lança mais um disco bom.
  • Em 2012, o visual punk-gótica-lésbica-descolada de Lisbeth Salander pós-filme vai ser tornar tão onipresente que até a Constanza Pascolato vai ser fotografada de coturno e piercing na boca.
  • Em 2012, alguma subsubcelebridade vai inventar alguma coisa muito perturbadora para se exibir no carnaval.
  • Em 2012, Lana Del Rey vai se reinventar como compositora folk, cabelos pretos, franjinha, apenas um violão e vai mudar de nome para Kat Power.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Minha trilha sonora em 2011

Eu gosto mil vezes mais do Last.fm do que do Facebook.  Eu acredito que se você realmente quiser conhecer alguém, uma olhada no que ela gosta de escutar - se é que gosta de escutar alguma coisa - já diz bastante sobre ela.

Toda a preguiça que eu tenho com o Facebook, de "fulano likes this", correntes, videozinhos engraçadinhos, uns protestos idiotas, todo mundo feliz e sorridente ou indignado com "esses absurdos todos que estão por aí" me falta na hora de ficar fuçando no Last.  Ali sim eu perco meu tempo deixando meu perfil atualizado.

Agora que o ano termina, segue abaixo o 10 discos que eu mais escutei durante esse ano esquisito que foi 2011:

1.  Danger Mouse & Daniele Luppi - Rome (347 execuções)

Danger Mouse é o cara e 2011 foi um ano muito bom para ele.  Além desse Rome, ele ainda produziu El Camino, do Black Keys, que acabou de sair e é bom demais também.  Provavelmente só não entrou nessa lista aqui por falta de tempo.
Rome é a fictícia trilha sonora de um filme imaginário de Sergio Leone que nunca foi filmado.  É spaguetti western e não é.  É retrô e não é.  É instrumental, é pop e é foda!  É o melhor disco desse ano, na minha opinião.
Jack White - outro para quem 2011 fez muito bem - e Norah Jones, aquela linda, emprestam suas vozes para algumas faixas.

Faixa favorita: Two Against One


2.  Renato Godá – Canções Para Embalar Marujos  (204 execuções)


Esse não é desse ano, é de 2010, mas eu continuo escutando da mesma maneira desde então.  Renato Godá é um cara de muito bom gosto, para os arranjos, os timbres, as atmosferas de suas canções e de suas letras.  É um disco que presta homenagem ao mestres como Leonard Cohen, Tom Waits e Serge Gainsbourg mas ainda mantém a cabeça erguida com personalidade e luz própria.
Diz que em 2012 sai o disco novo.  Aguardo ansiosamente.

Faixa favorita: A Cem Por Hora


3.  Paolo Nutini – Sunny Side Up (198 execuções)


Disco de 2009.  O segundo do moleque escocês com nome italiano e descrito pela crítica da época como um "suicídio comercial", aqui ele cria uma personalidade única na interpretação das canções, num sotaque às vezes irreconhecível, numa divisão silábica toda quebrada e nuns timbres esquisitos às vezes, mas que, depois de algumas escutadas, vira ouro puro.

Faixa favorita: Candy


4. The Black Keys – Brothers  (165 execuções)


Provavelmente a melhor banda por aí no momento, numa fase fantástica.  Esse ano lançaram El Camino e em 2010 foi a vez desse Brothers, dois puta discos.  Com a banda formada apenas por um baterista e um guitarrista, o som que sai é moderno e atemporal, com uma pegada blueseira e garageira assobiável e fácil de bater o pezinho junto.  Além de seguirem muito bem a cartilha Foo Fighters de clipes-engraçadinhos-bem-feitos-pra-cacete.  Clássico!

Faixa favorita: Howlin' for You


5.  The National – High Violet  (149 execuções)


Pensando melhor, acho que passei 2011 escutando muita coisa de 2010.  Que pouco moderno.
Esse disco também é incrível.  É o canto do macho perdido no século 21.  A voz de barítono de Matt Berninger, com aquele eco de Joy Division e aquele baixão pós-punk e letras ao mesmo tempo muito pessoais e bastante crípticas, traz para os anos 10 aquela urgência, confissão e dúvida de uma maneira sincera e direta.  Pra pensar na vida pela janela do carro.

Faixa favorita: Sorrow


6.  Mumford & Sons – Sigh No More  (146 execuções)

Outro disco "velho" que tem rolado non stop desde 2009 e a banda que eu tive o grande prazer de assistir ao vivo.  Sigh No More é daqueles discos de colocar embaixo do travesseiro.  É o disco de estréia deles, com letras inteligentes, uma banda nova mas com personalidade de veterana, arranjos folk mas sem ser cabeçudo ou "olha-como-somos-bacanas-e-gostamos-de-bob-dylan".  Foi a banda que fez o banjo ser legal.
Eles estão enrolando com o disco novo faz tempo.  Torço demais para eles não fazerem nenhuma cagada e estragarem uma carreira que tem tudo para ser brilhante.

Faixa favorita: Roll Away Your Stone


7. Criolo – Nó na Orelha  (129 execuções)


Polêmico pelos motivos errados, sem dúvida esse foi um dos melhores discos brasileiros do ano.  As picuinhas da "nova cena" ou "novos movimentos sambinhas" devem ser ignorados e o disco escutado com atenção.  A produção fodaça de Daniel Ganjaman faz a cama para Criolo criar um som estiloso sem se prender a muitos rótulos ou estilos, embora a linguagem e a estética do rap meio que criam a unidade do disco inteiro.

Faixa favorita: Subirusdoistiozin


8 . Ray LaMontagne and the Pariah Dogs – God Willin' & The Creek Don't Rise  (118 execuções)


Outro disco de 2010.  Ray LaMontagne é daqueles cantores que realmente sabem cantar.  Sua voz é carregada de sentimento e profundidade e ele sabe colocá-la para fazer a canção funcionar.  Dessa vez ele se juntou ao Pariah Dogs e foi juntar a fome com a vontade de comer.  Aqui ele sai um pouco do folk introspectivo que ele normalmente pratica e vai respirar novos ares.

Faixa favorita: Beg Steal or Borrow


9. Aloe Blacc – Good Things  (110 execuções)


Esse Aloe Blacc é daqueles caras que são tão talentosos que dão até raiva.  Naquela linha de caras como Marvin Gaye e Isaac Hayes, aqui ele mostra que aprendeu bem com os mestres e dá uma aula da canto, arranjos sofisticados e bom gosto na escolha de repertório.  As canções de amor intercalam-se com as de críticas sociais, sem nunca cair no óbvio ou no panfletário.

Faixa favorita: You Make Me Smile


10.  Karen Elson – The Ghost Who Walks  (107 execuções)


Eu disse que 2011 tinha sido um ano tão bom para o Jack White pós-White Stripes que até o disco da ex-mulher, que ele produziu, escreveu letras e tocou bateria, é excelente!  Karen Elson é muito muito gata, muito estilosa e sua voz se encaixa perfeitamente na atmosfera do disco e das canções que ela interpreta.  Jack White cria aquela atmosfera retrô-analógica-muderna com uma personalidade que fazia tempo que ele não demonstrava.  Difícil saber se a moça sobrevive a um segundo disco sem o ex-maridão, mas de qualquer forma, The Ghost Who Walks é uma prova indiscutível de talento da supermodel.

Faixa favorita: 100 Years From Now

E em 2011?  O que você escutou de bom?

domingo, 23 de outubro de 2011

Bad As Me


Eu considero Tom Waits um sopro de lucidez nesses tempos surreais em que vivemos.  


Isso falando de um cara que faz uma música que não faz concessões, barulhenta, intensa mas absolutamente autêntica e original, diz bastante sobre a situação de música e arte por aí.


Uma observação do sr. Waits publicada hoje no The Guardian, sobre a suposta "liberdade" de escolha que temos hoje:



"They have removed the struggle to find anything. And therefore there is no genuine sense of discovery. Struggle is the first thing we know getting along the birth canal, out in the world. It's pretty basic. Book store owners and record store owners used to be oracles, in that way; you'd go in this dusty old place and they might point you toward something that would change your life. All that's gone"



Se tiver um minuto, vá atrás de suas entrevistas.  Qualquer uma.  De qualquer época.


Tom Waits lançou um disco novo esses dias, chama-se Bad As Me.  É uma coleção de 13 canções maravilhosas, com um agudo senso estético de desespero e beleza em meio ao caos.  Ele está ficando melhor com a idade e com o tempo, achou sua voz e o que quer dizer e consegue expressar-se com uma aparente simplicidade que apenas décadas de trabalho e de lapidações de canções conseguem fazer, como acontece apenas com os gênios.  E eu nunca uso essa palavra.


Ninguém vai escutar esse disco.  
Quem, por acaso tentar pelo hype em torno dele, vai desistir na terceira música, perguntar: "Por que ele canta assim?? Que coisa esquisita", apertar o shuffle do iTunes, que vai escolher uma música entre as milhões que estão ali, cair em qualquer merda, que pode ser de Lady Gaga a Lady Antebellum, enquanto fica no Facebook, recebendo e repassando coisas engraçadinhas, como um gato tocando piano ou a dica do seu horóscopo.


O interesse ou a vontade de se deixar impressionar pelo novo foi substituída pela necessidade de estar conectado e de dar risada antes de todo mundo sobre o último vídeo ou polêmica na internet, que pode ser uma atriz bêbada falando merda na área vip de um festival de música ou uma mina utilizando pão e maionese de maneira pouco ortodoxa.


Música virou barulhinho ambiente, algo que fica ali tocando enquanto você está ocupado fazendo outra coisa.  
Arte virou distração, uma coisa para te distrair e te relaxar.  Tem que ser fácil, mastigado, estrofe-estrofe-refrão-bridge-estrofe-refrão, simples, assobiável, capítulos curtos, engraçadinho, com um mercado específico e definido, muita figura e com um final que não te surpreenda.  
"Já temos para nos preocupar na vida, vou querer ver filme que me faça ficar triste??".  


Enquanto isso, Tom Waits está por aí, fazendo o que faz melhor.  
Suas canções e seus discos também ficarão, naquela prateleira empoeirada lá no fundo do sebo com a plaquinha "música de velho / música difícil".


Uma tristeza.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Free Rafinha

Para começar, eu não gosto do Rafinha Bastos.
As piadas do "homem mais influente do Twitter" costumam sempre despencar para o mau gosto, o palavrão gratuito e o riso nervoso e fácil do chocar simplesmente pelo chocar.  Da mesma forma, eu tenho sempre a tendência de não gostar de nada que se assemelhe vagamente a essa nova onda de shows de stand up brasileiros.  O ponto não é que me ofendem de qualquer forma ou que eu acredite que humor tem que ser feito de um jeito ou de outro.  Eu simplesmente acho chato pacas.

Comédia stand up é provavelmente das mais difíceis de serem feitas por necessitar de um ritmo, um vocabulário e de uma gama de idéias que normalmente as pessoas que se arriscam no gênero no Brasil simplesmente não possuem.
Claro que existem milhões de humoristas sem graça tentando fazer stand up em qualquer lugar, Estados Unidos incluso.  Porém, temos que admitir que os americanos, certamente os pais do formato, mostraram o que essa forma de humor tem de melhor: Eddie Murphy nos 80, George Carlin, Lenny Bruce e por aí vai elevaram o gênero stand up ao que ele tem de melhor.  E não se engane: nas apresentações de todos esses citados tem muito mais palavrão e termos chulos do que em qualquer apresentação de Rafinha ou congêneres.  A diferença é que, nesse caso, as palavras tem uma razão muito clara de estarem onde estão.  E isso é simplesmente uma opinião.

O humor brasileiro sempre foi calcado em gêneros, personagens.  A bicha, o negro, o gordo.  Nós sempre achamos mais engraçado rir do outro do que rir de nós mesmos, que é a alma da comédia stand up, aliás.  Rir do deficiente, da loira burra, do português é muito mais legal, certo?  Agora, veio falar de mim, a coisa aperta.
Lembra daquele video do YouTube que o "comediante de pé" brasileiro chega no palco, aponta o dedo pra alguém da platéia, chama um cara de gordo, ele sobe no palco e dá um soco no artista em questão?  Por aí....

Como todo mundo, tenho acompanhado a saga Rafinha Bastos x Wanessa Camargo e family.  Se você esteve em Marte nos últimos tempos: a moça tá grávida e Rafinha, querendo dizer que ela estava gostosa, disse em rede nacional, na bancada do programa CQC do qual é apresentador que "comeria ela e o bebê".  Uau!!  Engraçadíssimo, certo?  Até aí nenhuma novidade.
Um parênteses: a piada não é mais sem graça que qualquer uma do Zorra Total ou da Escolinha do Professor Raimundo que, bem lembramos, tinha entre seus personagens a gostosa burra, o judeu, o caipira ignorante, o árabe avarento e o índio, para citarmos alguns clássicos do repertório humorístico brasileiro.
A razão de considerarmos esse programa um clássico do humor brasileiro e a piada de Rafinha um caso de polícia me escapa agora.

Voltando à repercussão do caso.  Aparentemente, ele mexeu com a pessoa errada.  A tal da Wanessa é filha de um cantor sertanejo muito famoso e casada com um outro tal de Marcus Buaiz que, dizem, é um empresário fodão, amigo do Ronaldo Nazário (não confundir com o Ronaldo Fenômeno da Seleção e do meu Corinthians), influente na TV Bandeirantes e num monte de outros lugares e foi aí que o Rafinha se fudeu: foi afastado do CQC, perdeu contrato de patrocínios e foi hostilizado pela "opinião pública" como o novo Herodes do pedaço.  Ele já tinha se metido em outras polêmicas anteriormente com outras piadas igualmente estúpidas de estupradores e mulheres feias e de orfãos no dia das mães, que nem valem a pena serem repetidas.

Se a situação e a punição de Rafinha já eram esquisitas antes (a Bandeirantes não contratou o cara justamente por ele ser mal educado e desbocado? Humm...) a cereja do bolo foi a notícia de que Wanessa, o maridão e o filho que ainda nem nasceu (!) entraram com uma ação de indenização e danos morais contra o humorista no valor de CEM MIL REAIS (!!!!).

Ok, pausa.

Tudo bem, vivemos numa sociedade em que qualquer um pode processar qualquer um por qualquer motivo que se ache justificado.  Isso é um direito inalienável e necessário para o funcionamento de uma sociedade civilizada.  No caso, a honra da família foi supostamente atingida e eles consideram que cem paus pagaria essa honra maculada. Mas, peraí, sou eu ou tem alguma coisa errada quando um humorista perde o emprego, é processado e hostilizado por fazer o que lhe pagam para fazer??

Tenho acompanhado a questão de perto nos meios de comunicação e redes sociais e estou curioso com o desenrolar do caso.  De uma forma ou de outra, a situação tem implicações éticas muito delicadas, resvalando em preceitos fundamentais como LIBERDADE DE EXPRESSÃO que, num país com uma democracia tão incipiente como a nossa, toma proporções muito mais complexas e graves.

Alguém, em sã consciência, realmente acredita que Rafinha Bastos tenha algum desejo de manter relações sexuais com um recém nascido?  Acredito que não.  O formato no qual ele fez a declaração era um programa de humor no qual, entende-se, não é para ser levado a sério.  Você não gosta do humor que Rafinha Bastos faz?  Não assista seus programas, não compre seu DVD, não vá a seus shows, ignore que ele existe.  Isso é a maravilha da democracia: você não é obrigado a consumir nada que considere ofensivo ou que não lhe agrade (falando de Brasil, muitas aspas aqui).

Se Wanessa e cia ganharem a ação, isso abre precedente para que?  Para que artistas tenham que entregar suas obras para aprovação antes de levá-las a público para não correr o risco de ofender os interesses de terceiros?  Ofender minorias tudo bem, desde que o lobby delas não seja forte o suficiente para supostamente se defenderem como os paladinos dos bons costumes de plantão estão fazendo?  De qualquer forma, além da óbvia hipocrisia do caso, eu sinto um cheiro nojento de censura nessa história toda.

Não estou defendendo Rafinha Bastos nem nenhum dos merdas que fazem o CQC.  Entretanto, quero pensar que eu moro num país onde eles podem dizer o que quiserem e falar o que quiserem enquanto existirem pessoas que querem ouvir o que eles tem a dizer ou achar engraçadas suas piadas.  Eu sei o tipo de humor que eu consumo - engraçado para uns, nem tanto para outros - e que EU tenho a liberdade de dizer um "vai tomar no cu" e mudar de canal instantaneamente cada vez que eu vejo aqueles caras de terno preto fazendo propaganda de refrigerante enquanto xingam o Congresso na minha TV.

Não quero ninguém decidindo isso por mim.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Daytripper


Algumas obviedades que você provavelmente já ouviu por aí:
  1. Fábio Moon e Gabriel Bá são dois dos maiores artistas de quadrinhos brasileiros desde...  Bem, desde sempre.
  2. A qualidade e a diversidade que o gênero quadrinhos adquiriu nas últimas décadas e sua conseqüente diversificação de mercado permitiu que diferentes tipos de histórias pudessem ser contadas nesse formato, com resultados mais ou menos bem sucedidos.
  3. O Brasil não oferece nenhum reconhecimento a muitos dos talentos que tem, fazendo com que muitos deles tenham primeiro um reconhecimento “lá fora” do que por aqui.

Tudo verdade.

Quem acompanha o trabalho de Moon e Bá sabe do talento que os irmãos gêmeos sempre demonstraram em seu trabalho.  Porém, sinto que ainda faltava uma obra definitiva, uma união efetiva entre a arte e o texto, que justificasse a linguagem de arte seqüencial que eles inegavelmente dominam, onde o texto e a arte se complementam harmoniosamente, sem um se sobressair ao outro.  Daytripper, que acaba de ser lançada no mercado brasileiro pela Panini, veio para preencher essa lacuna.   





A obra foi originalmente lançada no mercado americano, pela Vertigo, selo de quadrinhos adultos da DC Comics.  Foi vencedor de diversos prêmios, inclusive o respeitado Eisner como melhor minissérie de 2011.  
Já no Brasil....

Enfim...

A obra é um primor em qualquer aspecto que se analise: a arte é arrebatadora e se encaixa perfeitamente no ritmo e fluidez da história.  Os personagens são humanos, demasiadamente humanos, e vamos acompanhando e nos identificando, através de suas vidas, o quanto temas como família, amizade, amor e morte são caros e relevantes a todos nós.
O fato da história se passar no Brasil, em diversas cidades, passa ao leitor brasileiro uma sensação de familiaridade ainda maior.  Mérito total da arte, os detalhes das pessoas, arquitetura e hábitos de várias cidades brasileiras, aumenta significantemente para nós a intimidade e identificação com a obra.



A narrativa da história é ousada, abusando de regressões temporais, cortes, idas e vindas no desenvolvimento da história, mas que nunca fica confuso, pretensioso ou difícil de acompanhar.  Nesse caso, ela serve justamente para desenvolver as complexidades e profundidades dos personagens, especialmente do protagonista Brás Oliva Domingos.  Outro ponto em que a dupla acertou em cheio!
A obra foi originalmente publicada como uma minisérie em dez edições.  A divisão dos capítulos sempre deixa o leitor com um nó na garganta quando um termina e outro começa.  Nos faz parar para coçar a cabeça e nos lembrar que todo dia pode ser um dia daqueles, onde tudo pode mudar e que não conseguiremos esquecer.

Não vou fazer um resumo do livro aqui porque creio que reduziria demais o conjunto de idéias profundas que Daytripper alcança. 


Saiba apenas que aqui ninguém tem super poderes ou vem de outro planeta.  Aqui as pessoas vivem suas vidas da melhor maneira que conseguem, tentando se relacionar com os que amam do jeito que sabem.  Como eu.  E como você.

É um trabalho muito bonito, que realmente emociona pela honestidade e carinho com que os personagens se desenvolvem e seguem seus destinos.   Uma obra de arte!



terça-feira, 9 de agosto de 2011

London Calling



Nesses dias estranhos temos a sensação da história acontecendo diante de nossos olhos, a transformação parece inexorável e definitiva e temos a certeza de que o mundo não vai mais ser o mesmo.
Não é simplesmente um evento isolado, numa cidade distante.  É um espírito no ar gerando mudanças em todos os lugares ao mesmo tempo.

A história ensina que as grandes transformações, o fim e o início de novos ciclos, geralmente não ocorrem por influências externas, mas pelo próprio sistema que corrói a si mesmo até desmoronar sob seu próprio peso.

Esses tempos me fazem pensar que uma nova forma de viver é possível, que as coisas não foram "sempre assim".  Destruição e reconstrução são inevitáveis como o dia e a noite.

É uma época boa de se estar vivo.

sábado, 6 de agosto de 2011

The girl next door

 
Sempre gostei demais da Nancy Sinatra.  Uma mulher linda, cheia de personalidade e atitude, um rosto e voz suaves mas com um olhar misterioso, que esconde segredos terríveis. 
É aquela construção agridoce, que esconde uma aspereza por baixo da melodia assobiável.  A maquiagem borrada sobre o rosto de anjo.
Ela me conquistou definitivamente com o cabuloso disco Nancy Sinatra, de 2004.  A turma que ela conseguiu juntar nesse disco é brincadeira: Morrissey (que é obcecado por ela desde a adolescência), Jon Spencer (meu mais novo guitar hero), Thurston Moore, Jarvis Cocker e a turma do U2, pra citar alguns.
A maior parte de sua produção musical foi feita no meio dos 60 até o começo dos 70.   Portanto, em 2004, Nancy, indiscutivelmente ainda cheia de talento, mojo e experiência, já era uma respeitável senhora, e com uma capacidade de seduzir - os olhos e ouvidos - que os anos transformaram em admiração e respeito.

Porém, geração Y, seus problemas acabaram.

Estava à toa na vida e outro dia, por acaso, vi num post do Popload a bela figura de Lana Del Rey.  O Lucio Ribeiro é um cara que sabe das coisas, é divertido, porém seu estilo é hiperbólico demais e quem segue os textos dele sabe que tem que pensar algumas vezes antes de comprar todas as "maravilhas" que ele indica.

Com Lana Del Rey, o cara acertou em cheio. 



 Ela tem 25 anos e ainda está gravando seu primeiro disco.  Suas poucas músicas disponíveis já mostram uma artista cheia de estilo, nuances e camadas, pop ao extremo mas com aquele jeito de quem tem algo mais a dizer.  Tem aquele mesmo brilho no olho sacana/inocente que popularizou a filha do Frank no passado. 
É o clichê do universo pop, mas essa mixed message sempre funciona.

Os dois videos abaixo são sensacionais e as músicas são incríveis.  A opção estética pelo antigo em contraste com o novo, desenho animado e video game, gera uma estranheza que torna difícil desviar o olhar. 
Ela ensina que não é preciso rebolar nem ter que se vestir "sensual" para seduzir.  O que faz um cara perder a cabeça, sabemos, é um olhar, um sorriso roubado, aquela arrumada no cabelo, a girl next door. 
Mas isso é só para quem pode, não é para quem quer.

Esperando o disco novo como criança espera o natal.

Os videos.  Enjoy.



Kinda Outta Luck


Video Games